O encontro entre criador e criatura
Como lidar com um sentimento capaz de nos levar a atitudes extremas? Como entender uma emoção que nos distancia da realidade e da razão? O espetáculo “A última canção de amor deste pequeno universo” levou para o palco a agonia de um homem apaixonado pela mulher impossível e que tirou a própria vida após perceber que não podia ficar com sua amada. A peça que encerrou temporada em São Paulo no dia 30 de outubro deixou uma boa impressão e a sensação de que o teatro carece de mais clássicos em cena.
O texto de autoria de Cynthia Paulino é uma adaptação do romance “Os sofrimentos do jovem Werther”, escrito em 1774 por Johann Wolfgang Von Goethe, considerado o precursor do romantismo alemão. Conta a história que este livro foi escrito em apenas quatro semanas e que, de tão densas as palavras, levou à época muitos jovens ao suicídio. A obra teria sido uma quase autobiografia de Goethe, que também viveu um amor não correspondido, mas não teve o mesmo fim trágico de seu personagem.
Em cena, os atores da Companhia Teatro Adulto, formada por Alessandro Aued, Paolo Mandatti, Pedro Piazzi, Rafael Neumayr e Cyntia Paulino, que além de autora da peça, também dirigiu o espetáculo e interpretou Carlota, a moça prometida a Alberto e por quem Werther se apaixona. Destaque para o trabalho de corpo dos atores, por meio do qual foi possível sentir toda intensidade dos personagens. Uma energia tão potente pairando no palco que tornou totalmente irrelevante o fato de não haver cenário. A dramaticidade ficou por conta da iluminação, modificada pontualmente.
O diferencial da montagem é que a autora colocou Goethe também em cena, ao lado dos personagens criados por ele. Cyntia Paulino propôs um hipotético encontro entre criador e criatura. Genial. Talvez uma chance para a autoavaliação e a tentativa de um final diferente para um amor tão arrebatador. Mas, infelizmente, o destino de Werther continuou sendo trágico, afinal “tudo aquilo que traz felicidade ao homem quase sempre é a fonte de sua desgraça”, diria Goethe.
Este romance na verdade é uma metáfora da vida real. Quando um amor começa é como uma vida nova que se inicia: aos poucos toma conta do espaço e cria sua própria identidade. Mas quando a paixão termina, um pouco de nós morre com ela, o mundo em volta fica mais triste e a existência perde a graça. Até que outro amor surge e o ciclo se renova. “A última canção de amor deste pequeno universo” é uma reflexão sobre as escolhas que fazemos, sobre os caminhos que seguimos em detrimento de outros. Quando apenas um “sim” pode fazer toda a diferença e um “não” é capaz de por um ponto final no sonho de uma via inteira.
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