Teló, Adele e afins – Uma discussão interminável
Muito se tem comentado a respeito do fenômeno Michel Teló. Até a capa de uma conceituada revista semanal do Pais ele estampou. Porém, o que me impressionou mesmo foram as inconseqüentes campanhas envolvendo seu nome, seja a favor, seja contra.
Do lado contrário ao ídolo sertanejo estão aqueles que insistem em usar o espaço virtual para realizar o chamado patrulhamento político-ideológico. São aqueles classificados apropriadamente como “chatos profissionais”, que questionam o fato de o artista ter obtido sucesso mundial com uma música de qualidade duvidosa. Como se o público brasileiro não tivesse consumido lixo musical importado nas últimas cinco décadas, não é mesmo?
Do outro lado, desta vez favorável ao ídolo sertanejo, estão alguns pretensos filósofos, que por sua vez afirmaram que conquistar o sucesso fácil e de consistência duvidosa foi um mérito positivo. Alguns até compararam Teló com ícones do naipe de Carmem Miranda e Milton Nascimento, que conquistaram seu espaço dentro do exterior em épocas diferentes. E não bastasse isso, os pretensiosos ainda frisam que o sertanejo ultrapassou até o fenômeno britânico Adele, em volume de downloads de música na internet. Outra comparação esdrúxula e sem qualquer cabimento.
Uma qualidade que Michel Teló não tem é a ingenuidade. Antes de estourar nas paradas, ele já desenvolvia uma carreira como artista da música sertaneja. O hit “Ai Se Eu Te Pego” grudou no inconsciente popular de uma forma avassaladora, auxiliado por renomados jogadores de futebol, incluindo Neymar e Cristiano Ronaldo, que repetem a coreografia do cantor sertanejo nas comemorações dos gols.
Teló tem procurado capitular esse sucesso de forma inteligente. Já fez versões da canção em outras línguas. E começa a se preparar para fazer shows no exterior. Ele sabe bem o que pretende e até onde poderá chegar com essa história.
Mas daí ficar fazendo comparações com a cantora Adele foi algo longe demais, até mesmo para um humilde leitor. Fenômenos musicais como o de Teló vem ocorrendo desde a década de 70 na indústria da música, seja no País, seja no exterior.
Querem exemplos? Vamos a alguns deles, que ainda povoam a memória do inconsciente popular. Quem não se lembra de Mauro Celso e a sua Farofa-Fá, que virou mania nacional na década de 70 logo depois de participar de um festival de música transmitido em rede nacional? Tivesse tido um direcionamento adequado em sua carreira, Mauro Celso (que faleceu em 1989) poderia ter estourado também no exterior, pois a sua receita simples de farofa, de refrão fácil, combina bem com a fórmula usada por Teló.
No exterior, as paradas foram invadidas nos anos 80 por um grupo alemão chamado Trio, cujo maior hit foi uma pegajosa canção, com um refrão quase minimalista, que se resumia nas sílabas Da Da Da. Os que possuem mais de 40 anos irão se lembrar bem dessa canção, que tocou exaustivamente nas rádios, inclusive do Brasil.
É importante salientar que ambos os lados (o favorável e o contrário) estão exagerando no tom das críticas. Não se pode simplesmente ignorar o estrondoso sucesso que Teló conquistou nos últimos meses. Mas colocar esse sucesso em um patamar igual ao de outros artistas nacionais consagrados internacionalmente é uma heresia. Assim como é descabida comparação com a cantora Adele, que tem uma proposta de trabalho bem diferente da de Teló.
Na prática, somente o tempo se encarregará de mostrar quem está com a razão. Se for um sucesso musical com consistência, Teló será lembrado daqui há 30, 40 anos, como um visionário, alguém que estava à frente de seu tempo. Ou então, ficará condenado ao ostracismo de um sucesso descartável, solenemente esquecido pela mídia.
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