Regina Benedetti faz parte da nova geração da MPB
Ao ouvir a suave e melodiosa voz de Regina Benedetti, tive a certeza de estar diante de um daqueles raros momentos em que paramos simplesmente para contemplar o talento de uma grande artista. Além de cantora, Regina também é compositora, bailarina e percussionista. Sua principal característica é exaltar a MPB, o samba de raiz, passeando pela bossa nova, baião, xote, além de outros ritmos brasileiros.
Em 2003, passou uma temporada na Itália onde cantou, dançou e atuou. Ao retornar deste rico estágio, destacou-se em diversos festivais de música no Brasil, em especial, no “Festival Nacional de Música Italiana”, em Santa Catarina. Ocasião em que ganhou diversas premiações como compositora e intérprete.
Dois anos depois participou do Projeto “… E o mundo não se acabou- Tributo à Carmen Miranda”, no qual interpretou sambas das décadas de 1930, 1940 e 1950 de compositores como Assis Valente, Zequinha de Abreu, Ary Barroso e Lamartine Babo. Em 2011 participou das comemorações dos 80 anos do pai da Bossa Nova, João Gilberto, em Juazeiro, na Bahia, onde dividiu o palco com João Bosco e o Maestro Aderbal Duarte.
Seu primeiro cd, “Juras”, foi lançado em 2008 com músicas românticas que exaltavam o amor. Já no final do ano passado, saiu do forno “O Canto da Sereia” – uma homenagem à cultura afro-brasileira.
O trabalho foi elaborado com canções autorais executadas em arranjos singulares e atuais. É um trabalho que merece ser apreciado. A seguir, a entrevista que Regina Benedetti gentilmente concedeu ao Lérias & Lixos. Ela fala da vida, da carreira e como tudo começou.
Lérias: Em que momento de sua vida você decidiu deixar a psicologia para se dedicar à vida artística?
Regina Benedetti: Acredito que desde que nasci sabia que queria ser artista. Aos sete anos, pisei no palco pela primeira vez e jamais vou esquecer a emoção.
A faculdade de psicologia aconteceu porque a minha família se preocupava muito com o meu futuro, pois ser artista, músico, cantor, enfim, não é visto como algo seguro. Não depende só do talento e dedicação, mas de sorte e investimento financeiro. Ter um diploma talvez os deixasse mais tranquilos. Depois de formada trabalhei em casas de recuperação para dependentes químicos, com psicologia clínica, Recursos Humanos, mas nunca e em hipótese alguma abandonei a arte. Passei um tempo me dividindo entre o dom e uma opção profissional e por fim sentia que não estava fazendo direito nem uma coisa nem outra. Como sou perfeccionista decidi abandonar de vez a psicologia para viver da minha arte.
Com a decisão alguns pessimistas diziam que não ia dar certo ou que eu estava ficando louca. No início não foi nada fácil. A parte financeira apertou e muito, não tinha mais o famoso “fixo” e, para me manter, fiz diversos trabalhos como recepções em festas, eventos, feiras agropecuárias, trabalhei muitos anos como bailarina, dancei em bandas, fui passista de bateria de escola de samba, dei aulas de dança, tocava em bares e por fim fui trabalhar na Itália. Mas toda essa vivência acrescentou muito no meu crescimento profissional.
Lérias: Quais suas influências musicais? O que você ouvia quando era criança?
Regina: Pode parecer brincadeira, mas como sou nascida no interior de São Paulo e cresci no sítio, tive muito contato com as músicas que meu pai e minha avó ouviam: Tonico e Tinoco, Nalva Aguiar, Pena Branca e Xavantinho, Lourenço e Lorival, Cascatinha & Inhana, Tião Carreiro e Pardinho, Pedro Bento e Zé da Estrada, dentre tantos outros. Depois passei a conhecer música clássica, jazz, MPB, bossa nova e samba.
Descobri Elis Regina, Milton Nascimento, Mário Zan, Luiz Gonzaga e Elba Ramalho. Ouvia também alguns discos de minha mãe como Chico Buarque, Paulo Diniz, Ângela Maria e Caubi Peixoto. Sempre fui muito eclética para música, mas depois que conheci a MPB me apaixonei por esse universo maravilhoso!
Aprendi muitas dicas boas com meu parceiro de trabalho de muitos anos, Pedro Rubens Justino, “Pedrão”, que certa vez me disse que se eu cantasse samba e bossa nova eu estaria pronta para cantar qualquer estilo musical.
Lérias: Quando você descobriu que sabia compor?
Regina: A gente nunca acha que sabe fazer alguma coisa até realmente dar o primeiro passo. Fiz minha primeira música quando tinha 13 anos de idade para um menino que eu gostava e ele só me dava o fora.
De alguma forma tinha que exteriorizar essa dor, então fiz uma canção chamada “Tento esquecer”. Lembro até que cheguei a cantar pra ele. Minhas amigas gostaram, então passei a fazer outras, versões, paródias e até participei de pequenos festivais de composição na minha cidade.
Compor é realmente algo que me dá prazer, paz e é uma forma única de unir a poesia com a doce melodia da vida.Alguém sempre vai se identificar com suas canções por um motivo ou outro; ou porque está amando, porque está sofrendo, feliz e assim vai. Para compor, não tem hora e nem lugar, basta apenas se entregar.
Lérias: Quais os motivos que te levaram a morar na Itália? Seriam as raízes italianas, afinal seu sobrenome te incrimina.
Regina: Apesar de ter o sobrenome italiano, não foi por esse motivo, na verdade não foi nada premeditado, simplesmente aconteceu. Ganhei alguns concursos de Carnaval em São José do Rio Preto e por isso tinha uma ligação com o samba. Quem organizava esses concursos era um grande artista, o carnavalesco “Celso Caran”. Ele tinha uma parceria com uma Agência também da cidade e que sempre levava pessoas para trabalhar naquele país. Abriram um edital para selecionar artistas, eu passei no teste. Apaixonei-me pela cultura italiana e aprendi um pouco da música, fui chamada para fazer backing vocal para um grupo que cantava obras de Cláudio Baglioni, além de dançar, atuar e fazer as famosas serenatas napolitanas.
Lérias: A música italiana é muito querida aqui no Brasil. Você já pensou em gravar um CD com canções italianas?
Regina: Sim, já!Mas acredito que ainda não é o momento. Apesar de também compor em italiano e ter conquistado premiações com a música italiana, acredito que este cd virá num momento mais brando de minha vida. Não estou focada nesse estilo musical agora.
Lérias: Em seu primeiro cd “Juras”, quais foram suas inspirações?
Regina: Quando fiz este CD estava numa época mais introspectiva da minha vida. A proposta da outra gravadora foi fazer um Cd mais romântico, algo mais sereno, que falasse de amor. Então o produtor selecionou algumas composições que acreditava estar de acordo com esse universo. No início a ideia era algo acústico, somente gravar voz e violão mesmo.
Lérias: Ao ouvir seu novo CD “Canto da Sereia”, percebi uma forte influência à cultura afro. Quais os motivos que te levaram a compor esta homenagem?
Regina: Este cd é uma realização da minha alma, meu pulsar afro que não se calava dentro de mim. Sentia-me cobrada por mim mesma, pensava dia e noite, só não sabia como executar. As composições vinham nos momentos mais inusitados: em casa, no clube, dormindo, até acordava no meio da noite para escrever, algumas coisas vinham através de sonhos. Não dá para negar que o samba contagia e cantá-lo me possibilitou novas descobertas, há anos vinha montando esse trabalho. Cheguei a tentar realizar o projeto com músicos da minha cidade, busquei parcerias com empresas, prefeituras, enviei o projeto para o ProAC, mas naquele momento nada aconteceu. Isso frustra um pouco, mas não desisti.
Foi quando um amigo, o baterista Hamilton Thomé, e sua irmã Cláudia apresentaram o projeto para o produtor Toni Gianinni, que gostou da ideia, assim como outros músicos maravilhosos como Amador Longhini Jr, Pepa D´Elia, Edmilson Capeluppi. O resultado você pode conferir na rádio UOL, ou no Terra Sonora.
Lérias: Percebo em sua voz uma nuance suave que me remete à Maria Rita. Existe essa semelhança?
Regina: É engraçado as pessoas buscarem referências musicais quando um artista novo desponta por ai. A comparação de estilo, timbre, perfil físico é normal. Quando eu cantava em bares sozinha fazendo voz e violão me comparavam com Ana Carolina. Muita gente diz que meu timbre é bem parecido com o de Maria Rita, outras pessoas acham que não tem nada a ver. Já me compararam com Daniela Mercury, Leila Pinheiro, Adriana Calcanhoto, Clara Nunes, até com Gal, e são cantoras maravilhosas que respeito e que também ouço.
Mas meu trabalho é muito diferente de Maria Rita, ela é uma grande intérprete, e meu foco de trabalho é me projetar não só como cantora, mas também como compositora. Até me tornar reconhecida nacionalmente e perceberem a minha própria identidade, sempre acontecerão as comparações, mesmo assim me sinto honrada em ser comparada às grandes intérpretes.
Lérias: Defina em poucas palavras quem é a cantora Regina Benedetti.
Regina: Uma pessoa determinada, sensível e fiel às suas crenças. Simples, amiga e que busca realizar seus sonhos levando alegria e emoção através da sua arte.
Conheça a carreira de Regina Benedetti: www.reginabenedetti.com
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