Nossa homenagem à Rachel de Queiroz
Duvido que você nunca tenha ouvido falar em O Quinze. Pelo menos na minha época, a obra fez parte da lista de livros obrigatórios para se ler no colégio e, mais tarde, no vestibular. A história se passa no nordeste e mostra a fome como consequência de uma região prejudicada pela seca.
Um enredo tão antigo, mas atual. O livro foi publicado em 1930. Naquela época, a autora, uma jovem de apenas 20 anos, espremeu a realidade do sertão nordestino nas cerca de 160 páginas. Rachel de Queiroz virou referência nacional como escritora de romance regionalista e o livro colocou-a entre os grandes autores brasileiros consagrados.
Ontem, Rachel de Queiroz completaria 100 anos se estivesse viva. E, acredite, para críticos literários e amantes de um bom clássico brasileiro, ela está. O Quinze, sua primeira e mais popular obra, retrata um pouco a própria história da autora. Nascida em Fortaleza em 17 de novembro de 1910, sua família sofreu com a seca sete anos mais tarde e foi obrigada a fugir do Ceará, tendo se abrigado no Rio de Janeiro e, mais tarde, em Belém do Pará – mesmo lugar onde hoje mora uma conhecida do Marco, nosso querido leriano de gastronomia. Segundo lendas, a mulher fazia um ótimo bolinho individual.
Mas isso não vem ao caso. O título de sua mais famosa obra faz referência a triste realidade do Ceará de 1915. Ao longo dos 26 capítulos enumerados, o leitor se depara com um cenário precário e castigado da região de Quixadá. Com linguagem simples e direta, a autora coloca toda sua emoção sem se preocupar em tachar mocinhos e bandidos pela desgraça dos personagens. E bandido, na realidade, só há um: a miséria, cuja principal consequência é a morte, que caminha livremente durante a narrativa.
O Quinze garantiu à Rachel de Queiroz o prêmio da Fundação Graça Aranha. Daí pra frente, uma conquista atrás da outra. Em 1977, foi a primeira mulher a integrar a Academia Brasileira de Letras. E foi um pouco de tudo na vida: professora, jornalista, tradutora, cronista e dramaturga. Também tomou gosto pela literatura infantil. Sim, para quem não sabe, Rachel de Queiroz publicou clássicos para a criançada, como Andira, Cafute & Pena-de-Prata e O menino mágico, que lhe rendeu o Prêmio Jabuti, em 1970. Por falar em Jabuti, Rachel de Queiroz também recebeu, três anos mais tarde, o prêmio Livro do Ano de Ficção pela obra Memorial de Maria Moura. Essa vocês devem conhecer. A obra virou até minissérie na TV Globo, tendo sido protagonizada por Glória Pires.
Para quem ainda não se animou (ou se comoveu) com O Quinze, vou dar uma pequena canja. Escolhi um um trechinho que dá claramente para sentir o tom da narrativa e o drama de quem sofre com a seca, realidade não muito distante de 1915.
Lá se tinha ficado o Josias, na sua cova à beira da estrada, com uma cruz de dois paus amarrados, feita pelo pai. Ficou em paz. Não tinha mais que chorar de fome, estrada afora. – Trecho de O Quinze
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