“Hair” em São Paulo: atores e personagens (Parte 2)
Além dos elementos técnicos citados no texto anterior, o elenco de “Hair” é provavelmente o melhor que já vi em cena. E, infelizmente, como muitos devem saber, grandes nomes do elenco carioca, como, por exemplo, Igor Rickli, Letícia Colin e Karin Hills, foram substituídos. Mas posso afirmar: Fernando Rocha, Kiara Sasso, Juliana Peppi, Estrela Blanco e os novos integrantes da tribo chegam aos palcos sem dever nada ao que foi apresentado no Rio de Janeiro e tornam-se surpresas agradáveis na montagem paulistana. E, além de o elenco ter alta competência, os personagens da peça são mais aprofundados que os do filme, o que melhora muito a qualidade da história que ficou conhecida nas mãos do cineasta Milos Forman.
Claude é um deles. Interpretado pelo ator Hugo Bonemer, o personagem muda completamente quando comparado ao que é apresentado no filme. Claude agora é fundamental para o desenrolar da história e deixá-la ainda melhor. Ele não é mais um cara do interior jogado num grupo de hippies que vive na rua como mostra o filme. Muito pelo contrário, Claude é um dos personagens mais complexos da peça, sendo comparado em muitos momentos com Hamlet. “Vou para a guerra ou fico com a tribo?”, “Quero me casar ou amar a todos?”. E competência por parte do ator, tanto em atuação como em canto, é o que não falta.

E mesmo não tendo assistido Fernando Rocha nos palcos cariocas quando substituiu Igor Rickli, posso dizer que o ator trouxe um novo Berger na montagem paulistana, diferente daquele apresentado no Rio de Janeiro e que podemos ver pelos vídeos no Youtube. Mas quando digo diferente, digo para melhor, muito melhor! Creio que nos novos ensaios os diretores e o próprio ator decidiram desconstruí-lo e remontá-lo para o papel de Berger. E conseguiram. Rocha é competente tanto no lado cômico de seu personagem (forte do ator) como no lado dramático. Ele é o Berger: um animal selvagem que não possui rédeas e nem vergonha, sendo o hippie mais atrevido da tribo.
Também é a primeira vez que vejo Carol Puntel em cena e só posso dizer uma coisa: vídeos não fazem justiça ao talento vocal da atriz. Sempre que vejo gravações dela cantando, eles parecem agudos demais, o que pode ser também problema da minha pobre caixa de som. Mas ao vivo a voz da cantora é um deleite, assim como seu personagem e sua inspirada atuação. A atriz interpreta Sheilla, que, enquanto no filme é apresentada como uma jovem da alta sociedade que decide se mistura com os hippies, na peça é a principal ativista da tribo que fica dividida entre o animal selvagem Berger e o mais manso Claude. A Sheilla da peça possui voz e fica muito mais interessante do que no filme.
E Reynaldo Machado é uma grande sensação em cena interpretando Hud, roubando muitos momentos do espetáculo. O ator possui uma veia cômica extraordinária. É um dos principais nomes quando assistimos “Hair”, assim como Marcel Octavio, instigante no papel de Woolf. Atores como Davi Guilhermme (Margaret Mead), Bruna Guerin (mãe de Claude), Renan Mattos (diretor da escola de Berger), Juliana Peppi (Dionne) e Kotoe Karasawa, Emerson Espindola e Jennifer Nascimento também são destaques na produção.

E é impossível não comentar o fato de Kiara Sasso estar no elenco. Quando ela foi anunciada, foi uma das grandes mudanças, deixando muitos fãs de musicais com uma “pulga” atrás da orelha. Afinal, é um personagem que não estamos acostumados a ver a atriz interpretar. A maioria de suas personagens foram princesas e damas. O que dizer então quando vemos a atriz no papel de uma grávida, drogada e hippie? Não há palavras para descrever. Sasso faz Jeanie com grande competência e com uma graça incrível, tirando grandes risadas do público. Brinco ao dizer que é uma nova Kiara Sasso: extremamente solta, à vontade e no espírito de seu personagem em cada palavra. Não sei se me arrisco a dizer que é o melhor papel da atriz, pois, além de não estarmos acostumados a vê-la assim, infelizmente não conferi todos os seus trabalhos, entre eles os aclamados “A Noviça Rebelde” e ”O Fantasma da Ópera”.
Estrela Blanco, a irmã caçula de Lua Blanco (que também foi revelada pelos musicais e hoje está em Rebelde), é outra que está precisa e comovente em cena. Não são muitas as aparições individuais da sua personagem Crissy, mas quando isso acontece a plateia se derrete. A atriz faz um belíssimo solo de “Frank Mills”, que ficou ainda mais emocionante em sua delicada, doce e afinada voz. Há ainda uma comicidade quase pueril quando ela entoa o verso “que ele disse um oi que eu gostei” durante a canção. Você se identifica, esboça um riso de canto de boca e, por fim, se rende. Se este não for o melhor solo do musical inteiro, com certeza é um dos mais acertados! Mas são tantos solos extraordinários que é difícil escolher um. “Donna”, “Ar”, “Cara de macaco”, “Tenho fé no amor”, “Pra onde eu vou?”, é difícil escolher um como o melhor, pois são todos de alto nível.
“Hair” possui um dos melhores elencos em cena que já vi, se não for o melhor. Deve ser o melhor. Podemos elogiá-los, esquecer de alguns, exaltar outros, mas o geral é o mesmo: composto por 30 atores, é um dos elencos mais preparados que vemos no teatro musical brasileiro devida à alta competência de seus atores e atrizes, que fazem justiça ao espetáculo, assim como os técnicos e os diretores. É uma obra-prima, perfeição mesmo. Então não espere aí sentado e deixe o sol entrar enquanto esperamos por “Um violinista no telhado”!
|
-
Convidado
-
http://www.facebook.com/mikes.oliveira Michael Oliveira
-
Maria de Fátima Da Silva
-
Julianapereira









