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“Atrás do Pano” mostra os percalços dos bastidores teatrais

Como diz o título, Atrás do Pano chega para mostrar com muito humor o que acontece nos bastidores de produções teatrais, e isso engloba os percalços e caminhos percorridos para que um espetáculo chegue ao momento de apresentação para o público, da atriz diva aos problemas técnicos que precisam ser resolvidos às pressas.

 

 

Nessa sátira de produção não muito grandiosa, o texto escrito por Luiza Jorge e dirigido por Marcelo Romagnoli diverte o público com sua comédia escrachada, especialmente os espectadores mais familiarizados com o mundo teatral, que facilmente se identificarão com diversas situações e com a dinâmica de grupo dos personagens.

 

Entre eles estão o diretor da peça, quatro atores e o famoso “faz-tudo” da produção técnica. O elenco sofre com o conflito entre a famosa protagonista e o novato, companheiros de cena de um antigo galã e um ator afetado que se gaba por ter acabado de participar de uma novela. Enquanto isso o diretor tenta colocar tudo nos eixos sem ficar louco ao mesmo tempo que precisa deixar a montagem pronta e perfeita para a estreia do dia seguinte. Para aumentar o “drama”, o teatro onde a montagem está sendo feita corre o risco de ir a baixo e precisa do sucesso da peça para satisfazer os patrocinadores e o público e continuar de pé – além de manter a imensurável dignidade dos atores renomados e alavancar a carreira dos novatos.

 

 

Os atores reais Tadeu di Payetro, Luiza Jorge, Fábio Esposito, Gustavo Haddad, William Amaral e Cleber Tolini (uma revelação cômica nos palcos) são fundamentais para trazer o texto aos palcos sem soar exagerado ou banal. A dinâmica entre eles funciona muito bem e com muito talento, conseguem um mérito raro e bastante difícil de ser alcançado: tirar risos da platéia durante o decorrer de todo o espetáculo.

 

Então, se o importante em uma comédia é fazer rir, isso Atrás do Pano alcança com sucesso. Com referências contemporâneas, a peça brinca com ela mesma e com sua arte, vencendo por não passar dos limites e se manter no campo do bom senso e do bom gosto.

 

Teatro Itália
Avenida Ipiranga, 344. Centro. Metrô República.
Telefone: (11) 3255-1979.
Bilheteria: terça a domingo a partir das 15h.
Aceita Cartão de Crédito e débito ou pela Compre Ingresso 2122 4001.
Capacidade – 278 lugares.
Temporada: Sextas e sábados às 21h e domingos às 19 horas.
Até 25 de novembro
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Dorotéia com Alinne Moraes se transforma em sátira

Seguindo a máxima de que a primeira impressão é a que fica, pelos comentários na saída do teatro, boa parte do público ficou insatisfeito, um tanto quanto decepcionado com a montagem de Dorotéia. O impacto visual é indiscutível, a começar pelo cenário bem produzido e, obviamente, pela expectativa de ver a bela Alinne Moraes em cena, a mesma atriz que cativou o Brasil interpretando uma paraplégica na novela “Viver a Vida”. O fato é que a peça surpreende, mas não envolve. E justo no ano do centenário do autor Nelson Rodrigues…

 

Dorotéia pode ser considerada uma tragicomédia, foi escrita em 1949 e aborda temas como repressão sexual, hipocrisia e falso moralismo. A protagonista, interpretada neste caso por Alinne Moraes, é uma ex-prostituta que, após perder o filho, se arrepende e procura abrigo na casa das três primas viúvas e extremamente feias. Para ser aceita, a moça precisa provar que merece o apreço da família e para isso, tem de abrir mão de sua beleza, considerada um pecado terrível. A direção da peça é de João Fonseca, o mesmo de “Tim Maia Vale Tudo”.


PONTOS POSITIVOS

 

Nesta montagem, o destaque é para Keli Freitas, que interpreta a personagem Das Dores, filha da mais megera das três irmãs viúvas, Dona Flávia. A menina nasceu morta prematura aos cinco meses de gestação, mas às vésperas de sua noite nupcial ainda não sabe que não existe. Apesar do rostinho novo, Keli conhece bem o teatro. Atua desde os 13 anos, já participou de Malhação na TV Globo e no cinema fez a jovem Nenê de “A Grande Família, o filme”. Também trabalhou como assistente de direção em outras quatro peças, todas dirigidas por João Fonseca. Em Dorotéia, com sua personagem de jeito torto e voz rouca, Keli rouba a cena sempre que aparece e é quem concede graça e leveza ao espetáculo.

 

 

Nelson Rodrigues escreveu esta peça como crítica a uma ideia da época, segundo a qual “a mulher que goza, é bonita e feliz não presta e tem de ser destruída”. Também por isso, os atores Gilberto Gawronski, Alexandre Pinheiro e Paulo Verlings foram escalados para interpretar as três primas feias, que de tanto renegarem a feminilidade tornaram-se monstruosas. Marcus Magella faz Dona Assunta da Abadia, outra mulher horrenda. Escalar homens foi uma ótima sacada para representar mulheres “retas e sem quadris”, como indica o texto do autor.


PONTOS NEGATIVOS

 

Infelizmente toda a beleza e exuberância de Alinne Moraes não foram suficientes para esconder sua falta de experiência no teatro. Esta é a segunda peça da atriz admirada por seus trabalhos na televisão. Apesar da ótima acústica do teatro Raul Cortez, Alinne encena falando muito alto, por vezes aos berros, sem necessidade. Seus gestos são expansivos demais, mas talvez tenha sido escolha do diretor. Em todo caso, faltou um pouco do “menos é mais”.

 

 

A trilha sonora escolhida é um lamento à parte. Não sou antiquada quando se trata de teatro, já vi outras montagens de Dorotéia igualmente inovadoras e beirando o surreal. O próprio autor classificou o texto como uma farsa, o que não precisa nem deve ser confundido com uma sátira. Utilizar músicas de Beyoncé (Run the World e Single Ladies) e Lady Gaga (Born this Whay) definitivamente não foi legal. Como diria a minha avó, não orna.

 

Em todo caso, vale a pena ver para conhecer um pouco de Nelson Rodrigues, um dos ícones do teatro brasileiro. Um grande autor nascido há 100 anos e que retratou como ninguém as mazelas sociais e culturais da nossa sociedade. Antes de chegar a São Paulo, o espetáculo esteve em cartaz no Rio de Janeiro e após a temporada paulistana, a peça seguirá pelo Brasil, de acordo com o diretor.


Serviço

Teatro Raul Cortez
Rua Dr. Plínio Barreto, 285 – Bela Vista – SP
Apresentações: sextas, sábados e domingos até 14/10/2012
Para ver um trecho da peça, clique no link bit.ly/MYbHmA

O Libertino é uma comédia sobre filosofia

Nino tira a roupa no palco e mostra o quanto cresceu. Calma! Isso quer dizer que Cassio Scapin definitivamente deixou para traz seu personagem infantil em Castelo Rá Tim Bum e deu mais uma prova de talento. Sem roupa e sem pudor, ele interpreta Denis Diderot, um filósofo francês (1713 a 1784) às voltas com a definição da Moral na peça O Libertino, adaptada e dirigida por Jô Soares. Mas não adianta aguçar a curiosidade para conhecer o aparato do ator em cena. Apesar de nu, nada pode ser visto.

 

Nesta comédia sobre filosofia, a definição de Moral fica confusa para Diderot, um mulherengo assumido e incorrigível que se vê perdido entre seus impulsos sexuais e as convenções da sociedade. Situando o tema num contexto humano, ele define como Moral tudo aquilo que traz felicidade ao indivíduo. Mas, no decorrer do espetáculo, diferentes situações fazem com que a Moral, assim como a Ética, tenha sentido subjetivo dependendo do ponto de vista.

 

Na peça, vemos um Diderot casado, mas que amava as mulheres e fazia uso de sua condição de estudioso da humanidade para manter casos extraconjugais mesmo com a reprovação da esposa. Apesar de sacana, nunca confirmava suas traições, afinal, segundo ele “a dúvida é cem vezes mais deleitável que a verdade”.

 

 

O texto é de autoria de Eric-Emmanuel Schmitt, escritor e também filósofo, que conferiu leveza e sagacidade a um tema tão controverso como a Moral. Por que são os homens que cortejam as mulheres e não o contrário? “Porque é natural pedir a quem pode dar”, responderia Diderot. Apesar do assunto polêmico, durante a montagem é fácil reconhecer o humor sarcástico do diretor Jô Soares. Diverte e causa empatia no público. Em alguns momentos chega a lembrar seriados americanos como “Two and a half men”. Cheguei a imaginar Charlie Sheen na pele de Diderot.

 

O entrosamento entre os atores é notável. Destaque para Erica Montanheiro, atriz que interpreta Angélique, filha de Diderot. Não há muita informação sobre a moça disponível por aí, mas ao que parece, atua no teatro pelo menos desde 2005. Erica certamente terá um futuro promissor, pois dispõe do que chamam de tempo da comédia. É engraçada sem exageros. Também faz parte do elenco Luiza Lemmertz, filha da atriz Júlia Lemmertz. Apesar da boa atuação, Luiza tem um sotaque que atrapalha e precisa ser mais bem trabalhado.

 

A peça entrou em cartaz no teatro Sérgio Cardoso, infelizmente, em curta temporada, encerrando as apresentações no domingo dia 22 de julho. Vale a pena ficar atento na programação desse pessoal. A diversão é garantida!

Crítica: R & J – Juventude Interrompida

Com a melhor das aproximações entre plateia e palco que um teatro pequeno e de circuito alternativo pode proporcionar, R & J – Juventude Interrompida traz uma das obras mais encenadas do mundo na versão do americano Joe Calarco, que foi sucesso no circuito londrino e no off-Broadway nos anos 90. No Brasil, o texto é dirigido por João Fonseca e após grande temporada no Rio de Janeiro e marcar presença diversas vezes entre as 10 melhores peças em cartaz, ganhou o prêmio APTR de Melhor Produção e fica até dia 29 de abril, próximo domingo, em São Paulo.

 

 

Lousas penduradas pelas paredes do teatro e cadeiras de sala de aula típicas de um reformatório criam o ambiente, apresentado na primeira cena pelo quarteto de jovens a proferir em uníssono frases e ideias impostas pelo colégio católico tão estrito quanto seus uniformes. Passado o entendimento do cenário, os amigos estudantes informam a si mesmos assim como aos espectadores que é chegada “A Hora Noturna”, o momento de diversão do dia, em que decidem encenar Romeu & Julieta.

 

O paralelo da encenação desses jovens dentro de um quarto e sua interpretação dos personagens shakespearianos proporciona um ritmo dinâmico e faz desta uma versão mais inovadora e moderna da obra. A originalidade também está presente na trilha sonora, que vai de Beatles e Queen até referências a Daniela Mercury, como parte das tiradas cômicas, bem presentes durante a peça e que intercaladas com momentos mais dramáticos servem perfeitamente para o público atual, principalmente para o acostumado apenas com o “teatro-espetáculo”.

 

Com o decorrer da peça e a intensidade da obra clássica aumentando, as transições entre os estudantes e Romeu & Julieta se tornam cada vez menos constantes e os atores passam a revezar seus papeis com menos intermediações. Nessa difícil missão, Pablo Sanábio, por exemplo, dá vida a ama de Julieta, o Frei e Teobaldo, fazendo mudanças de personalidade, tom e até mesmo gênero, em um mínimo espaço de tempo. João Gabriel Vasconcellos, Felipe Lima e Geraldo Rodrigues (indefinidamente no lugar de Rodrigo Pandolfo) completam o elenco que dá gosto de ver em sua sincera e apaixonada interpretação. Não à toa, estão juntos nessa empreitada rodando o Brasil há mais de um ano.

 

 

Depois de se apresentar no Sesc Belenzinho, o fim da temporada paulista já está aí para R & J – Juventude Interrompida. Portanto, é melhor se programar logo para não perder a tragicomédia inesquecível criada pela junção de Joe Calarco, João Fonseca e quatro jovens, talentosos e promissores atores que é apresentada humildemente em um dos teatros mais aconchegantes e conhecidos pela classe artística, o Espaço Os Fofos Encenam.

Estação Paraíso/12 faz reflexão sobre preconceito e o valor da vida

É madrugada em São Paulo, uma das maiores cidades da América Latina, onde circulam milhares de indivíduos em busca de identidade. No meio da noite, dois homens, um branco e um negro, se encontram numa estação do Metrô. Mais que um acaso entre desconhecidos, a peça Estação Paraíso/12 propõe um debate sobre valores, crenças, religiões, preconceitos, ideais e objetivos. Duas visões de mundo antagônicas fazem o espectador refletir acerca de verdades absolutas da sociedade de hoje e a forma como lidamos com os problemas.

 

Uma arma em punho e o desejo de por fim à própria vida dá início ao espetáculo. A desilusão e a falta de perspectivas levam o homem branco, de classe média, trabalhador, a travar um embate consigo mesmo. Neste momento surge o negro, maltrapilho, um cidadão esquecido pela sociedade. Surge como uma sombra, um anjo da morte que coloca em xeque os questionamentos do suicida e evidencia o preconceito racial.

 

 

Fernando Nitsch e Tayrone Porto são os atores que dão vida a este drama urbano. A direção da peça é do também ator Celso Frateschi, que recentemente esteve em O Astro com o personagem Pirilo Cerqueira. Segundo ele, o espetáculo vem sendo escrito há mais de dez anos. “O diálogo entre os personagens é uma jornada na qual ambos passam por entendimentos diversos. São vítimas e responsáveis pelos próprios atos”, explica Frateschi.

 

O figurino e o cenário são simples, sem detalhes. Destaque para a tela translúcida presente o tempo todo entre o palco e a plateia, na qual são projetadas imagens e sombras. Além disso, este elemento cria um distanciamento da cena, fazendo o espectador acreditar na solidão daqueles personagens, como se estivessem realmente isolados do mundo num buraco do Metrô.

 

Estação Paraíso/12 está em cartaz no Teatro Ágora, na Bela Vista, em São Paulo, até 6 de maio. Apresentações sextas, sábados e domingos.

Jogando no Quintal tem improvisação de qualidade

Já imaginou assistir a uma partida de futebol na qual você decide a escalação e quem vai marcar o gol? Algum dia pensou que seria possível sentar na arquibancada ao lado de um torcedor do time oposto e ainda virar a casaca? E mesmo que seu time perca de lavada, ainda assim você vai se divertir? Sim, tudo isso é possível se a partida for da galera do Jogando no Quintal, grupo que transformou o improviso em arte e criou um formato de espetáculo perfeito para curtir com a família.

 

Desde 2001 esse pessoal já se apresentou para mais de 250 mil espectadores. Tudo começou em São Paulo, com a ideia de unir a linguagem de palhaço aos jogos de improvisação, num clima de partida de futebol. No início, a brincadeira era apenas para divertir os amigos e conhecidos. Mas com o sucesso, a plateia foi aumentando até que o quintal onde se apresentavam ficou pequeno e o grupo decidiu levar o projeto a sério.

 

Nos últimos anos, assisti a vários outros espetáculos de improvisação, bem como programas de televisão que prometem improviso e espontaneidade, mas nenhum deles chega aos pés da originalidade do Jogando no Quintal. Se você nunca viu, vale a pena conferir. Se já assistiu uma vez, aconselho ir quantas vezes quiser porque nunca haverá uma apresentação igual à outra. As sacadas surpreendem e o riso é garantido pela criatividade dos atores. Entre os integrantes está Márcio Ballas, o mesmo que comanda o programa Cante se Puder no SBT. E acredite: no teatro ele é engraçado.

 

Time em campo

 

Minha última experiência com o Jogando no Quintal foi no domingo de Páscoa, no Estúdio Emme, em Pinheiros, São Paulo. Na oportunidade, o ator convidado foi Marco Luqui, do CQC, que se saiu muito bem nos jogos de improvisação. Meia hora antes de iniciar o espetáculo, a produção liberou a entrada do público, mas ao contrário do tédio da espera, fomos surpreendidos com pequenas intervenções também com base no improviso.

 

Durante 90 minutos, o grupo promete diversão e interatividade. Tudo com o acompanhamento musical de banda própria. Ninguém fica parado. Até os mais tímidos acabam entrando no clima de arquibancada de estádio de futebol. Os temas dos jogos são sugeridos pela plateia e nada daquela coisa de induzir a resposta do público. Eles assumem a responsabilidade de embarcar na loucura do espectador. A coisa toda é tão diferente que até pequenas doses de cachaça são servidas antes de começar a brincadeira para deixar os convidados mais à vontade, se é que me entende.

 

O pessoal do Jogando no Quintal se apresenta em São Paulo, em diversos lugares e normalmente o preço do ingresso é baixo. E vá preparado, pois você poderá fazer parte da apresentação! Crianças também podem assistir. A agenda de espetáculos fica disponível no www.jogandonoquintal.com.br.

“Tudo que se Torna Um” aborda o tempo como tema principal

A Cia. de Dança Palácio das Artes passou por São Paulo nos dias 21 e 22 de março com o espetáculo “Tudo que se Torna Um”, mistura de dança e interpretação que comemora os 40 anos da companhia. São mais de 20 bailarinos em cena e uma coreografia que une a experiência de cada um dos integrantes, que têm entre 20 e 60 anos.

 

A direção é de Sônia Mota, nome conhecido da dança contemporânea como bailarina, professora e coreógrafa nas décadas de 70 e 80. Transitando por diversos estilos – clássico, moderno e contemporâneo – a criação evidencia a versatilidade deste grupo de Belo Horizonte (MG) e aborda o “tempo” como tema principal, explorando as transformações que ele provoca.

 

 

Em poucas oportunidades senti a necessidade de ter dez pares de olhos a mais. Em cada canto do palco uma cena diferente em execução. Uma porção de movimentos simultâneos, cheios de intenção, misturando diferentes técnicas de expressão corporal. Música, efeitos sonoros, poucas falas, iluminação e cenário minimalista também fazem parte da composição, conferindo uma certa sutileza.

 

Subjetivamente, é possível reconhecer nos movimentos a representação de alguns conflitos do ser humano: dúvida, ansiedade, medo, paixão. Para ter ideia do trabalho dos bailarinos, assista a um trecho do ensaio, visto de um ângulo um pouco diferente.

A Família Addams corrige os erros e impressiona!

Depois de uma temporada questionável nos palcos da Broadway, os produtores de “A Família Addams” revisaram seu roteiro, adicionaram novas canções e transformaram o ritmo de sua narrativa para a turnê americana da peça. E é essa versão totalmente repaginada que o público paulistano recebe no Teatro Abril, com produção da Time For Fun.

 


 

A dupla Daniel Boaventura e Marisa Orth personifica com coragem e maestria o icônico casal Gomez e Mortícia, criados pelo desenhista Charles Addams na década de 30. Na história criada para o musical, a Wandinha mimada e impiedosa que conhecemos está crescida e apaixonada. O rapaz que rouba o coração da primogênita Addams é Lucas, um garoto de família “normal”, o que causa uma reviravolta na família, principalmente depois que os dois resolvem fazer um jantar para que as duas famílias se conheçam. Interpretados por Beto Sargentelli, Paula Capovilla e Wellington Nogueira, os Beineke trazem um contrabalanço à peça e adicionam ao texto questões sobre os conflitos entre pessoas de costumes e origens diferentes, tolerância (ou a falta dela) e o desafio de lidar com mudanças dentro do próprio ambiente familiar. Acima dessa abordagem, porém, está o humor ácido e delicioso dessa família macabra.

 

 

Erros presentes na primeira versão do espetáculo foram corrigidos, como, por exemplo, o exagero no protagonista Gomez (interpretado por Natan Lane), agora consideravelmente suavizado por Daniel Boaventura, que esbanja talento e faz o público rir do começo ao fim. O timing para o humor que vemos em Daniel – e que já havia sido mostrado no mesmo palco em 2002 quando interpretou Gaston em A Bela e A Fera – está no mesmo nível do já conhecido timing de Marisa Orth, enquanto a atriz se mostra uma grande cantora em potencial e relembra seus anos de bailarina, surpreendendo a muitos, principalmente por ser sua estreia em musicais.

 

O resto do elenco pode não ser conhecido pelo grande público, mas não é menos talentoso ou competente, pelo contrário. Já calejados pelo teatro musical, Laura Lobo e Claudio Galvan são sensações à parte. Fester nos mostra toda sua doçura ao contar a história de sua paixão pela lua e Claudio rouba a cena e todos da plateia com uma apresentação incrível no segundo ato. Laura, com uma das mais incríveis vozes do cenário musical atual, deixa os fãs de “O Despertar da Primavera” com saudades de Martha e encanta quem a vê pela primeira vez.

 

Vovó (Iná de Carvalho) e Feioso (Nicholas Torres / Gustavo Daneluz) são os personagens que menos tomam à frente na história, porém – graças à perspicácia dos criadores – suas piadas são tão diferentes quanto suas personalidades, portanto, caso um não acerte em cheio o espectador, o outro dará conta do recado. Já Tropeço (Rogério Guedes) não emite uma palavra (nenhuma que se entenda pelo menos), mas não deixa de marcar presença e é motivo de ótimos momentos. O ensemble é formato pelos ancestrais dos Addams trazidos da cripta, incluindo figuras como uma dançarina dos anos 20, um homem das cavernas, uma índia e até uma noiva deixada no altar. Os fantasmas têm sua hora no show especialmente durante “Tango de Amor”, o maior número de dança do espetáculo.

 

 

A qualidade dos aspectos técnicos está sempre garantida quando se trata de uma produção da Time For Fun.  Juntamente com a competência desse elenco, músicas incríveis e um texto que já é sucesso e se adapta muito bem ao público brasileiro, “A Família Addams” se faz um espetáculo promissor e é uma grande concorrência para as peças musicais que invadem São Paulo.