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Artur Menezes – Blues Made in Ceará

Ele veio do Ceará. E tem o blues, ritmo tipicamente americano, correndo nas veias. Já tocou com feras do naipe de  Buddy Guy, e ainda concorre  na votação para tocar no renomado Crossroads Festival, do mito Eric Clapton. Ele é Artur Menezes, que está lançando seu segundo disco solo e vem conquistando a crítica especializada pela sua versatilidade e originalidade ao compor e tocar o blues. Não bastasse isso, ele ainda encontra tempo para promover o blues em seu estado de origem. Confira a entrevista que esse novo talento concedeu para o Lérias (fotos – crédito André Pharaoh):

Você já morou nos EUA e até tocou com nomes importantes do blues no exterior. Como foi essa experiência?
Incrível! Três foram as coisas que destaco das minhas experiências em Chicago: Marra, reconhecimento e confiança. Adquiri muita marra porque fui para um país estrangeiro, sem saber falar quase nada de inglês. Já no meu primeiro dia consegui tocar no B.L.U.E.S. on Halsted e Kingston Mines (além de ganhar um V.I.P Card pra entrar de graça no Mines). E claro o fato de conseguir me virar no dia-a-dia. Reconhecimento por ter saído do Brasil, de uma região que não é a mais abastada, pra tocar um estilo musical que não era meu, na casa dos “donos” do estilo e ser elogiado e respeitado. Confiança vem automaticamente depois do reconhecimento. Fui a Chigago em 2006, 2007 e 2011. Em todas as vezes encontrei o Buddy Guy no Legends, bar que ele é proprietário. Nos dois primeiros anos, apenas um oi, foto e autógrafo em cd. Em 2011 foi diferente. Como eu já tinha ido outras vezes, fiz muitos contatos. Conheci músicos, produtores, técnicos de som, seguranças dos bares, roadies, público frequentador da cena blues local. Enfim, era noite de Jam Session com o Brother John, grande guitarrista, pianista e cantor. Ele me deu “meia-aula” em 2006. Insisti tanto, pois adorava o estilo dele, que ele resolveu me dar a aula antes do show dele, no second floor do Legends. Ele já tinha me visto tocar antes nas Jams do bar e disse que eu não precisava da aula, pois eu já tinha o blues (“you got the blues”). Claro que fiquei feliz com isso, mas a gente sempre tem o que aprender. Insisti pela aula. Ele não me cobrou. Desde então virou amigo. Então, em 2011, quando ele soube que era a minha última semana em Chicago, perguntou se eu teria interesse em tocar com alguém em especial na Jam. Pouco tempo depois ele me chamou. Anunciou que eu era brasileiro e que era minha última semana lá. Quando eu subi no palco ele disse, “toque bem, se você agradar, o Buddy sobe pra dar uma canja. Você quer?”. Aí claro que aceitei e foi maravilhoso! Foi só um slow blues de menos de 10 minutos, mas foi inesquecível! Em 2012, tive a honra de fazer os shows de abertura da turnê do Buddy Guy aqui no Brasil e foi excepcional. Esse intercâmbio com artistas de blues norte-americanos é sempre muito legal e enriquecedor.

É verdade que você procura divulgar o blues em seu estado de origem, o Ceará? Como é feito esse trabalho?
A gente tem uma cena de blues muito forte em Fortaleza. Resultado dos vários festivais e de nossa busca incessante de espaços pra tocar e divulgar o blues. Hoje, penso ser a maior cena blues do Brasil, em termos proporcionais, claro. Tem períodos que você encontra blues de terça a sábado. São várias as bandas, os projetos e os festivais. Na minha adolescência era mais escasso. Tudo foi melhorando pela nossa insistência e aprimoramento do trabalho. Quando digo nosso, me refiro a todas as bandas que batalharam ou que vem batalhando pelo blues por lá. Sou um dos idealizadores do projeto Casa do Blues, junto com o Leonardo Vasconcelos e Roberto Lessa, integrantes da primeira banda que participei, a Blues Label. Trata-se de uma reunião das bandas mais ativas do cenário blues cearense, com CNPJ e como associação, bem organizada. Por conta disso, conseguimos apoios de órgãos públicos e privados para a realização de shows em vários bairros de Fortaleza (de preferência nos bairros de periferia), além de workshops e aulas de música, sempre com foco no blues.

Seu segundo disco, #2, tem composições em inglês. A iniciativa visa atender o mercado do exterior ou você não descarta compor também em português no futuro?

Considero mais fácil compor em inglês e combina um pouco mais com o blues tradicional. Mas eu tenho planos de cantar em português e me sinto bem mais à vontade agora, já que meu estilo vem sendo cada vez mais amplo e não apenas de blues tradicional.

Nos últimos anos surgiram muitos nomes do estilo no País. Será que o blues encontrou o seu espaço no mercado?
Acredito que sim. O blues é tipo uma fênix. Morre mas renasce das cinzas! É um estilo que sempre se renova e sempre é utilizado como uma ferramenta na música moderna e contemporânea.

Que tipo de estrutura você preparou para os shows ao vivo?
Esse meu novo disco, #2, está mais maduro e é uma continuidade desse meu gosto pela mistura de estilos. Foi bem gravado e melhor produzido. Além de ter tido toda uma pré-produção. Para os shows, estou mantendo a mesma banda que gravou o disco: Lucas Ribeiro (baixo), Wladimir Catunda (bateria), e Cláudio Mendes (teclado e guitarra).

O mercado fonográfico vive um momento de transição, por conta do advento da internet. Como você avalia o mercado para trabalho no País?
Eu considero a internet uma ótima ferramenta, complementando o trabalho de divulgação. Só no Facebook tenho mais de seis mil seguidores e a relação é bem sincera e atenciosa. Eu sempre procuro agradecer todos os compartilhamentos, curtir e responder os comentários. Ajudar as pessoas que me procuram com dúvidas de guitarra, sobre música, sobre a profissão “músico”. Sempre que possível faço sorteio de cds, guitarras, kits promocionais etc.
É verdade que você está concorrendo na votação para tocar no Crossroads Festival, do Eric Clapton? Como é que o público pode votar?
Para mim esse festival representa justamente a guinada na minha carreira. Se eu tiver essa oportunidade de tocar no Crossroads será um caminho sem volta. Acredito que as coisas vão melhorar cada vez mais. Além de ser uma tremenda responsabilidade e um tremendo orgulho representar o meu país neste que é o maior festival de guitarristas do mundo. Para votar basta acessar o link http://www.playcrossroads.com/u/Menezes e, lá embaixo da porcentagem, na opção “ADD YOUR SUPPORT”, escrever seu nome e seu email. Curtir a página do facebook e ouvir e comentar as músicas na página do festival também aumenta a pontuação.

Albert Pavão – A Enciclopédia do Rock

Se Nilton Santos é a Enciclopédia do Futebol, o músico Albert Pavão pode ser apontado com o mesmo atributo no que se refere ao Rock Nacional. Ele participou diretamente dos primórdios do estilo no País, no final dos anos 50 e início da década seguinte, ao lado de nomes pioneiros como os irmãos Celly e Tony Campello, Sérgio Murillo, Baby Santiago, além de sua irmã, Meire Pavão e tantos outros, que abriram caminho para o movimento Jovem Guarda na década seguinte. Por ter vivenciado de perto tudo o que aconteceu naquele período inicial, Albert decidiu escrever um livro, chamado Rock Brasileiro 1955-1965, que contém informações preciosas sobre o período, inclusive com registros que foram gravados pelos artistas naquela época. Até mesmo os cantores da chamada Era do Rádio, como Cauby Peixoto e Agostinho dos Santos, se aventuraram a gravar o rock. Em entrevista para o Lérias, Albert conta um pouco de sua trajetória como artista e se revela uma pessoa antenada com o que vem sendo produzido no rock nacional.

No período que seu livro abrange (1955 a 1965), o rock ainda era visto como um estilo fora dos padrões culturais do País. Que imagem tinha os artistas daquela época perante a mídia?

O rock não era considerado música brasileira. Isso só veio a ser levado em conta quando o Tropicalismo começou a usar as guitarras do rock. Os artistas da minha época tinham boa imagem perante a mídia. Celly Campello, por exemplo era a “namoradinha do Brasil”.

É verdade que cantores consagrados da era do Rádio se arriscaram a gravar rock nesse período ? Cite alguns exemplos?
No meu livro cito vários nomes como Blecaute, Francisco Carlos, Cauby Peixoto e Angela Maria, entre outros.
Na sua opinião, qual foi o artista ou grupo mais emblemático desse período?
Nesse período eu não tenho ninguém que tenha sido o mais emblemático. Até o Roberto Carlos era parecido com os demais.
Você e sua irmã, Meire, também emplacaram hits naquela época. Quem começou primeiro na música e como foi esse início de vocês?
Ela começou antes de mim na música.  Fazia parte do Conjunto Alvorada, que meu pai criou no começo dos anos 60. Eu comecei a gravar solo antes dela, quando recebi uma proposta para fazer um disco na Gravadora Mocambo. A Meire, quando o Alvorada se desfez, foi contratada pela Chantecler. E em 1964 ela despontou com  o hit “O que eu faço do Latim?”
Um dos hits mais cultuados dessa época é a versão em português de 20 Flight Rock, do Eddie Cochran, que você gravou. Fale sobre como foi feita essa gravação.
Eu tinha feito essa versão ainda em 62. E a cantava em shows com o grupo The Hits, que me acompanhava e que tinha uma legítima Fender Stratocaster.  Quando decidi gravar em 63, seria com acompanhamento deles. Mas o Rogério Duprat, que era o maestro da gravadora, disse que faria um arranjo para eu gravar com músicos de estúdio. E foi essa versão que acabou prevalecendo.
A Jovem Guarda, que estouraria no ano seguinte, pode ser apontada como uma continuação desse movimento liderado pelos pioneiros? No que ela difere daquele movimento inicial?
A Jovem Guarda tinha mais divulgação através de um programa forte na TV Record e nas outras emissoras também tinha outros programas (Excelsior, Tupi, etc). Ela só difere do pessoal que veio antes, porque não se gravava mais tantas versões. Nós produzíamos nosso próprio repertório.
Você acompanhou também o movimento do Rock nos anos 80 e mesmo o momento atual. Quem você apontaria como destaque dessa nova geração do rock nacional?
Eu apontaria Barão Vermelho, Ultraje a Rigor, Kid Abelha e Pato Fu, entre outros.
Como é que o público interessado pode comprar o livro?
O livro foi lançado por uma editora pequena e sua distribuição não é boa. Em São Paulo, por exemplo é encontrado na loja Baratos Afins, na Galeria do Rock e no Museu do CD na Avenida Paulista, 1.499, loja 18. No Rio de Janeiro, tem na Livraria Travessa que tem em diversos shoppings da cidade. De resto, quem quiser o livro pode me pedir pessoalmente pelo email alpavao@gmail.com. O preço é 30 reais e tem R$ 6,50 de despesas postais saindo a R$ 36,50, com ou sem autógrafo (risos).

Nasi, o último roqueiro perigoso do Brasil

Ele é apontado como um dos últimos roqueiros brasileiros autênticos, em termos de atitude. O fato é que Marcos Valadão Rodolfo, ou melhor, Nasi, escreveu a sua trajetória durante a década de 80, com a banda Ira!. Atravessou os anos 90 e permaneceu no grupo até 2007, quando se retirou em um episódio bastante conturbado, que resultou até em ações judiciais. Em paralelo, desenvolveu uma fértil carreira solo e lançou um livro autobiográfico, intitulado A Ira de Nasi. Atualmente, aos 51 anos de idade, ele trabalha na divulgação de seu mais recente disco, Perigoso, que reúne uma série de canções desconhecidas que ele trouxe novamente à tona, além de composições próprias inéditas. O resultado foi um disco com forte tom confessional, motivado pelo conteúdo de sua autobiografia. Confira a entrevista especial que Nasi concedeu ao site Lérias:

O repertório do CD Perigoso redescobre algumas canções desconhecidas do grande público. Qual foi o conceito de produção desse trabalho?

Desde do inicio do ano passado, comecei a ouvir e pré selecionar muita coisa. O que determinou a escolha foram os resultados dos ensaios e das ideias de arranjo. Muitas que pensei em gravar acabaram ficando pra traz nesse momento. De um modo geral escolhi músicas cujas letras tinham algo de confessional pra mim ou seja diziam algo sobre o que estava vivendo ou querendo dizer. Da parte musical são autores e gêneros que me agradam e fazem minha cabeça.

Você cita o disco de 1971 do Erasmo Carlos como uma influência forte sua. Além dele, que outros artistas foram importantes para sua formação?

O meu primeiro ídolo do rock foi a Suzi Quatro. Quando eu vi ‘48 crash’ aos 10 anos de idade, mexeu com meus hormônios pra sempre. A partir daí veio Alice Cooper, Black Sabbath e muitos outros.

O que mudou daquele início de sua carreira, nos anos 80, para os dias de hoje, em termos de gravação e divulgação dos discos?

No processo de criação, de composição e de escolha de repertório mudou pouca coisa. Isso sempre vai ter a ver com o momento do artista e com o processo de composição de cada um. Em termos de gravação, com certeza a tecnologia oferecida hoje é muito mais completa. O “Perigoso” foi gravado no Estúdio Trama, em 30 dias, com profissionais de primeira e excelentes equipamentos. O processo de divulgação, com o processo de venda pela internet e o Download das músicas, foi o que mais mudou. O CD “Perigoso”, por exemplo, saiu primeiro para download como álbum virtual pela Trama e depois o saiu o CD físico, no final de outubro. Isso jamais seria pensando no início da minha carreira.

Sobre o disco novo, quais foram os detalhes que o diferem do trabalho anterior (Ao Vivo na Cena)?

Praticamente todos. O “Ao Vivo da Cena” foi um DVD gravado, ao vivo, com alguns dos meus sucessos de carreira solo e do Ira! Nele eu recebi alguns convidados, inclusive. Já o “Perigoso” é um disco com metade das músicas com composições próprias inéditas e metade gravações de outros compositores.

Você também lançou recentemente uma autobiografia em livro, intitulada A Ira de Nasi. Como foi essa experiência?

Foi uma experiência ótima. Fiquei muito satisfeito com o resultado. A primeira coisa que eu queria é que não ficasse uma biografia chapa branca. Queria que tudo o que aconteceu, de verdade, fosse falado. O Alexandre Petillo já tinha quase todo material em mãos. A ideia inicial dele, lá atrás, era fazer uma biografia do Ira!, que acabou não saindo, depois que a banda acabou. Eu não estava pensando em uma biografia no momento. Quando surgiu o convite da Editora Belas Artes, achei interessante. Então, procurei o Petillo que já morava em São José dos Campos. Como a distância era inviável para as nossas entrevistas, chamei o Mauro Beting – que é um amigo e jornalista competente – para contar a minha versão isolada da história. Para o livro, precisei mexer em boas e doloridas lembranças. Isso acabou ajudando a conceber o CD “Perigoso”, criando uma atmosfera para um repertório com tom confessional.

Como estão os planos para os shows de divulgação do CD?

Os shows estão a todo vapor. Já temos algumas capitais marcadas e o ano de 2013 será de muita viagem prá levar o “Perigoso” para todo o Brasil!

Joe Bonamassa – Um workaholic musical

Joe Bonamassa pode ser definido como um músico workaholic. Além de desenvolver uma fértil carreira solo, ainda encontra tempo para formar uma banda (Black Country Communion) e gravar discos com outros artistas, como a cantora Beth Hart.

Parte de sua trajetória na carreira solo e dos seus projetos paralelos pode ser conferida no disco No Hits, No Hype, Just The Best, uma coletânea com título sugestivamente irônico. Afinal de contas, Bonamassa não tem os mesmos refletores que alguns artistas pop megaplatinados recebem da mídia. Mas nem por isso se deve desmerecer seu trabalho musical, calcado no blues/rock com ares setentistas.

Bonamassa é um exímio guitarrista, com técnica bastante apurada. E não bastasse isso, ainda canta bem suas composições e alguns covers. Fato que pode ser comprovado nas ótimas canções Dust Bowl e Blue Evil, ambas calcadas no blues/rock. The Ballad Of John Henry é de longe uma das melhores da carreira solo. Segue a linha do irlandês Rory Gallagher (fundador da banda Taste nos anos 60).

A ótima Sloe Gin, gravada ao vivo, traduz bem o que Bonamassa pode render em um palco. Tem solos de guitarra na medida certa, cheios de feeling e energia, como bem pede o estilo blues/rock. The Battle For Hadrians Wall é cantada por Beth Hart, assim como Sinner Prayer. E ambas mantém a linha setentista de Bonamassa.

One Last Soul é do grupo Black Country Communion, cujos vocais são feitos por Glenn Hughes. Em Asking Around For You, Bonamassa mostra influência de B.B. King, inclusive no vocal arrastado para a soul music.

No Hits, No Hype, Just The Best é bem aquilo que o título diz, ao pé da letra. Não há hits radiofônicos. Somente o que Bonamassa produziu de melhor ao longo da carreira. Para quem curte o estilo blues/rock, esse disco é uma escolha mais do que certa.

O Quarteto em Cy, agora em livro

De um simples contato pela rede social, realizado em 2004, nasceu um livro que tem mérito de reunir a obra de um dos mais importantes grupos vocais do Brasil. A jornalista Inahiá Castro, de São Paulo, resolveu encarar o desafio de contar a historia do Quarteto em Cy, que está prestes a completar 50 anos de atividades e ainda se mantém na ativa com uma qualidade inquestionável de seu trabalho. Ela conheceu Cynara, uma das integrantes do grupo, pelo facebook. E acabou se oferecendo para produzir o livro contando a história do grupo. A ideia foi aceita por todas as integrantes, que passaram a colaborar e contar, com riqueza de detalhes, a trajetória do grupo, que foi descoberto pelo poeta e compositor Vinícius de Morais e devidamente batizado pelo também compositor Carlos Lyra. O resultado desse trabalho pode ser conferido no livro As Meninas do Cy, que pode ser comprado nas livrarias ou no site da Imprensa Oficial do Estado. Confiram a entrevista que a Inahiá concedeu especialmente para o Lérias.

O Quarteto em Cy passou por vários momentos importantes, seja no plano cultural (a década de 60, a era dos festivais) e pelos regimes militar e democrático atual. Na sua opinião, como esses panoramas afetaram a trajetória do grupo?

Todos esses panoramas tiveram papel definitivo para o grupo. Na era dos festivais, apesar de o grande destaque ter sido a vitória de Sabiá, no Festival Internacional da Canção, em 1968, que foi interpretada apenas por Cynara e Cybele, o Quarteto em Cy estava ali representado. E era nesses festivais que os grandes artistas se projetavam. Não foi diferente com o Quarteto em Cy. Na Ditadura, apesar de elas não terem tido um papel explicitamente ativo – no sentido de que não eram militantes – o grupo passou pelas agruras da censura, como quando Vinícius foi proibido de aparecer no palco na turnê que ele fazia com elas e Toquinho. Ele declamava um poema que terminava com um palavrão, e isso chocou as esposas de militares que assistiram ao espetáculo em Brasília.Em outra ocasião, elas foram proibidas de cantar “O Ronco da Cuíca”, de João Bosco, então, optaram por cantarolar a canção, sem letra, de costas para o público e com os fios dos microfones prendendo os punhos atrás do corpo, deixando clara esta proibição. Estas e outras situações, ao contrário de enfraquecerem o trabalho, só o fortaleciam, porque gerava mais curiosidade e cumplicidade do público. A democracia trouxe o conceito de liberdade de expressão, mas isso também representou uma faca de dois gumes, no que tange à preocupação com a qualidade musical. A diretoria das gravadoras já não é mais formada por grandes músicos, como era antes, e sim por homens de marketing que privilegiam mais os resultados comerciais que a música pode levar a essas empresas do que a possibilidade de preservação de um patrimônio cultural. Então, apesar de o Quarteto em Cy ter sempre continuado sua atuação no cenário musical brasileiro, e também com importantes participações em outros países, após meados da década de 80 o grupo já não teve mais a mesma exposição na mídia, mas nunca deixou de ter um público fiel que sempre, até hoje, lota seus shows e prestigia todos os projetos do grupo.

Como foi o ponto de partida para escrever o livro autobiográfico do grupo?

Eu sempre fui muito fã dos grupos vocais e tinha o Quarteto em Cy e o MPB-4 como minhas principais referências neste estilo. Tive a sorte de conhecer a Cynara Faria, no final de 2004 por meio de uma rede social. No papo vai, papo vem, me ofereci para escrever a biografia do Quarteto em Cy, como uma forma de deixar um registro documental da importância do grupo para o cenário musical brasileiro. Fiz isso muito timidamente, com receio que ela e as outras componentes não achassem conveniente que uma jornalista que elas nem conheciam pessoalmente, assumisse essa responsabilidade. Mas, ao contrário do que eu temia, todas foram muito receptivas e aceitaram o desafio na hora. Como elas moram no Rio de Janeiro e eu em São Paulo, passei todo o ano de 2005 e parte de 2006 indo mensalmente ao Rio para entrevistá-las e também a outros artistas, que fizeram parte da história do grupo. Como a Cynara Faria é muito ativa e tecnológica, mantínhamos (como mantemos até hoje e assim será sempre) um contato praticamente diário pela internet, então, quando eu terminei a fase das entrevistas e passei para a elaboração do livro, eu sempre a consultava quando tinha alguma dúvida, e nessas conversas muitas coisas que não haviam sido ditas nas entrevistas, foram sendo acrescentadas, o que deu ao livro ainda mais tempero.

O que Vinícius de Morais e Tom Jobim representaram para a carreira do quarteto?

Creio que posso dizer que talvez o Quarteto em Cy nem existisse se não fosse por Vinícius de Moraes. Ele foi o descobridor e padrinho do grupo. Orientou-as em tudo no início de carreira, saiu em turnês com elas, se preocupava com cada passo do grupo e parece até que se enciumava – apesar de também comemorar – quando elas passaram a andar com as próprias pernas. Foi por meio do poeta que o grupo ganhou o nome de Quarteto em Cy. Até então, elas eram conhecidas com “as baianinhas” de Vinícius, até porque ele as levava a tiracolo em festas, saraus e reuniões que frequentava. Por decisão dele, foi realizada uma reunião na casa de Carlos Lyra para escolha de um nome artístico para o grupo e, em meio a várias ideias, Lyra sugeriu o definitivo, utilizando a sílaba “Cy”, que iniciava o nome das quatro irmãs que integravam a primeira formação do grupo (Cyva, Cynara, Cylene e Cybele), fazendo também uma alusão sonora à nota musical Si. Tom Jobim também teve grande participação na carreira do grupo. Elas fizeram parte de gravações dele e vice-versa. Estiveram juntos nos Estados Unidos, na década de 60, quando a Bossa Nova ganhou o mundo e viveram juntos muitas histórias que estão relatadas no livro.

Como foi a experiência do grupo no exterior, nos anos 60, mais precisamente nos Estados Unidos, que resultou na gravação de um disco em solo americano?

Elas foram levadas para os Estados Unidos por Aloysio de Oliveira, que foi o grande responsável por levar a música brasileira ao mundo, pelas portas da América do Norte. Aloysio foi casado com Cyva e enxergava todo um mercado que seria receptivo ao trabalho do Quarteto em Cy nos Estados Unidos. Lá elas foram lançadas com o nome de The Girls From Bahia, e chegaram a gravar o disco “Revolución com Brasília”. O álbum não tinha nada de revolucionário e elas não tinham nada a ver com Brasília (risos), mas, sabe-se lá por qual motivo, os americanos achavam que tudo que havia dali para baixo era cubano e revolucionário, e isso talvez explique o título em espanhol (risos). Lá elas se apresentaram em programas importantes como o Andy Williams show, que na época era o único transmitido de Costa a Costa no país. Frequentaram festas com grandes estrelas de Hollywood e encantaram uma plateia seleta com suas vozes. Mas, o trabalho foi interrompido porque duas delas não queriam sair definitivamente do Brasil, então, o grupo teve outra formação que também se desfez.

E o que aconteceu depois disso?

Houve essa dissolução, que aconteceu nos Estados Unidos. Aqui, Cynara e Cybele tentavam emplacar um trabalho como dupla – que foi vencedor de festivais – enquanto o Quarteto em Cy tentava a sorte nos Estados Unidos. Depois o grupo voltou a se unir, mas teve várias formações. A única integrante presente em todas as formações foi Cyva, a irmã mais velha, que foi a precursora de tudo.

Na década de 90 até os dias atuais, o mercado fonográfico vem passando por um momento de transição, principalmente em função do advento da internet. Como é que o grupo se adaptou aos novos tempos?

O Quarteto em Cy teve e sempre terá um público fiel e é interessante observar nos espetáculos a presença majoritária de um público jovem. Hoje, o grupo utiliza a internet para divulgar seu trabalho e manter um contato mais próximo com o público. Elas estão nas redes sociais e o site do grupo (www.quartetoemcy.com.br) está sempre atualizado com as informações e novidades sobre o trabalho delas.

Que papel tem cada integrante atual no grupo? A Cynara responde pelos arranjos vocais ou há um trabalho em conjunto com as quatro integrantes?

O grupo teve alguns e grandes arranjadores, como Luiz Claudio Ramos, Bia Paes Leme, Luiz Eça, entre outros, mas Cynara é a responsável pela maior parte dos arranjos, desde a década de 90, principalmente.

É verdade que quase foi formado, no passado (ainda nos anos 60), um octeto vocal com o MPB-4?

O octeto sempre existiu. Não como um trabalho único, que extinguisse a existência dos dois quartetos, mas, até hoje os dois grupos se apresentam juntos em várias ocasiões. O octeto já fez grandes turnês e projetos juntos, e ganharam disco de ouro com o álbum Bate-Boca (1997), interpretando composições da parceria Tom Jobim e Chico Buarque. Eles têm outros discos gravados em conjunto e ambos os grupos mantêm um grande respeito mútuo, e até hoje eventualmente se apresentam juntos.

O que o grupo está planejando para o futuro e como o público pode comprar o livro?

O Quarteto em Cy completará este ano 49 anos de carreira. A formação atual, e que se mantém a mesma há quase 40 anos é Cyva, Cynara, Cybele e Sonia. Este ano, o maior projeto do grupo é o espetáculo “Como dizia o poeta” em homenagem ao centenário de Vinícius de Moraes. O livro está à venda nas principais livrarias e também pode ser comprado pela internet no site da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo (editora) ou das grandes livrarias também. O preço é de R$ 30,00 em média.

Rolling Stones – Rock´n Roll por inteiro

O que será que motiva os músicos de uma banda de rock a permanecerem juntos por 50 anos? O processo mais natural sera o desgaste da relação, com a consequente separação. E os Rolling Stones tinham todos os ingredientes para tornar essa combinação explosiva: temperamentos difíceis e uma juventude regada com a velha receita de sexo, drogas e rock´n roll.

Mas eis que os Stones surgem no palco na noite do dia 15, nos Estados Unidos, para o show de encerramento de comemoração dos seus 50 anos de carreira. E tive o privilégio de acompanhar o show inteiro pela TV por assinatura, através do Canal Multishow, que o transmitiu em alta definição.

É claro que os Stones são hoje pessoas sexagenárias, que sabem bem o valor monetário de uma turnê e de sua obra lançada ao longo dos anos. Mas não deixou de ser surpreendente ouvir um Mick Jagger com a voz perfeita, abrindo o show com Get Off Of My Cloud, um hit dos anos 60 que fez sucesso nos Estados Unidos, que foi precedido por The Last Time, outro hit da mesma época. Um clima mágico se fez no palco dos Estados Unidos. Na terceira música,  a banda pulou para a década de 70 com a ótima It´s Only Rock´n Roll.

A fórmula foi a mesma da turnê do disco A Bigger Bang e do filme Shine a Light, com o fiel escudeiro Bobby Keys no sax, Chuck Leavell nos teclados, e mais Daryll Jones no baixo. Ron Wood estava cada vez mais solto nos solos, como em um clima de jam session, deixando Keith Richard com os riffs matadores. E o que dizer do baterista Charlie Watts? Uma cozinha ritmica mantida com um equipamento básico de percussão, sem grandes aparatos tecnológicos. É um baterista à moda antiga, que traz a pulsação necessária para o grupo.

Houve participações especiais de John Mayer (na cover de I´m Going Down, de Freddie King), Mick Taylor (ex-integrante dos Stones, que solou guitarra na épica Midnight Rambler), Lady Gaga (cantando em dueto em Gimme Shelter), o grupo Black Keys (com Who Do You Love, de Bo Diddley) e Bruce Springsteen (com o dueto de Tumbling Dice).

Os destaques do show vão para Honky Tonk Women (esta tem um dos riffs mais legais que escutei na vida), Simpathy For The Devil (com a maestria de sempre de Jagger nos vocais) e Brown Sugar (cantada em uníssono pelo público presente). Mas diria que todas as músicas tocadas, inclusive as três do bis – You Can´t Always Get What You Want, Jumpin Jack Flash e o eterno hino Satisfaction foram especiais.

Foram 50 anos resumidos em pouco mais de 2h30 de show. Uma aparente tarefa ingrata para quem possui uma obra tão rica e extensa como os Stones. Porém, na prática, uma missão fácil para uma banda, cujo nome foi inspirado em uma canção antiga de Muddy Waters, que  dizia que em pedras que rolam não cria limo. It´s Only Rock´n Roll, and I Like It! Yes I Do!

André Christovam – Muito além do blues

Uma importante parte da discografia do músico André Christovam foi relançada, permitindo que o público ouvinte possa ter acesso a sua obra. Através do selo Substancial Music, foram colocados novamente em catálogo os discos lançados entre 1989 e 2002. Apesar de ser um artista com fortes raízes no blues, ele também mescla muitos elementos de jazz e da nossa música popular brasileira em seu trabalho. Em entrevista ao Lérias, Christovam comenta os relançamentos e fala de seus planos para o futuro, que incluem shows pelo País. “Aprender é a minha palavra de ordem. É sempre tempo para descobrir coisas novas”.

Quais foram os discos relançados de sua discografia?

André ChristovamDo catálogo original relançamos Mandinga (1989), The 21220 Sessions (1991) e Banzo (2002). Os dois primeiros foram remasterizados e no Mandinga tem um bônus track. Genuíno Pedaço do Cristo numa versão nova, gravada em 2010 com o Lenine cantando. A Substancial Music aproveitou esse relançamentos para pormos à vendo meu primeiro cd ao vivo. Uma coleção que eu chamo de “The Bootleg Series” que ira disponibilizar para os antigos fãs gravações históricas. O primeiro é o LIVE IN POA com o AC Trio e o Hubert Sumlim, gravado em Porto Alegre em 2002.

Você tem composições com letras em inglês e português. Qual idioma você prefere trabalhar nas canções?

André Christovam - Cada coisa em seu lugar. Prefiro compor em português. Não ambiciono mercado internacional. Se mais pessoas soubessem do que estamos falando mais gente sairia de casa para assistir aos grupos de blues, mas ao que parece estou só nessa jornada, porque além de tocar seus instrumentos os blueseiros brasileiros tendem a esconder-se atrás de textos em inglês que nem sempre são textos relevantes, quando não são letras em português com palavras da língua inglesa. Triste.

 

Você tem uma raiz forte no blues, mas em alguns trabalhos demonstrou ter também outras vertentes musicais interessantes. Como você se classificaria hoje em dia?

André Christovam - Classificar pra mim significa estreitar, rotular. Sou um músico em primeiro lugar, um guitarrista em segundo. Vivo disso. Gosto e toco blues. Gostaria de ter mais opções e tocar outros gêneros que aprecio e  me dedico a aprender, se pudesse fazer isso teria condições de o fazer com mais eloquência e qualidade. Não esqueça de que antes de ser um artista solo tive anos de experiência como sideman tocando de tudo um pouco, principalmente rock’n’roll…

 

O mercado fonográfico está em processo de transformação, por conta do advento da internet. Como esse panorama afetou o seu trabalho?

André ChristovamAfetou a todos. Num primeiro momento destroçou as estruturas arcaicas das gravadoras. Numa segunda etapa o estrago se transformou em uma nova oportunidade de aprendizado e de liberdade criativa. Ainda assim afetou e ainda afeta muito aqueles que ao invés de se adequarem as mudanças impostas pelas novas ferramentas de registro e divulgação passam os dias reclamando e pondo a culpa em tudo e todos. O jogo mudou, levante do sofá arregace as mangas e vá aprender a lidar com essa nova realidade! Pra mim, ficou mais fácil editar e o planejamento criativo pode ser ampliado e deixar que a espontaneidade em certos projetos dite as regras da criação. Hoje se grava em hard disk com centenas de canais e possibilidades. Antes com fitas e apenas 24 canais a concepção já vinha delimitada pelo tempo e tamanho da própria mídia! O som mudou para pior? Talvez, mas existem ferramentas, ainda que caras que te dão os mesmos recursos. Ouso afirmar que o que realmente piorou foram os ouvidos de gente preguiçosa que se engrandece ao posto de “produtor”… Veja, aumentou em muito o desejo de ser famoso e a música é um ótimo veículo para tal. Aí muito lixo é descarregado num sistema pouco inteligente e extremamente manipulado de divulgação que faz com que um povo pouco educado se sacie com lixo e ache que toda a música é feita pelo parâmetro de vendas e sucesso… Mas música de verdade sobrevive. Isso é um vírus, daqui a pouco fica mais fácil ser famoso sendo político, ladrão, bandido e a música seguirá seu rumo sem tanta podridão sendo feita em seu Santo Nome… Ah ah ah!

Com 40 anos de carreira, você tocou com vários nomes de peso na música, inclusive do exterior. Fale sobre essas experiências.

André Christovam – Eu sou um aprendiz, vivo do desejo de aprender. Num primeiro momento fui orientado pelo Candido Serra, André Geraissati, Sergio Dias e os eternos Luiz Chaves, Hamilton Godói e Rubinho Barsotti do Zimbo Trio, donos do CLAM, escola onde estudava meu instrumento e os princípios de percepção musical e harmonias… Mudei pra Los Angeles aos 21 anos em 1980, lá convivi com nata da indústria musical e com os mais espetaculares guitarristas daqueles tempos, vi alguns se despedindo da cena e outros chegando com sangue nos olhos. A maioria é parte da minha família, a família que a vida traz a sua porta sem a interferência de pais e mães. Aprender com cada um foi uma dádiva. A rotina dessa busca continua se antes eu perguntava ao Pat Martino, Joe Diorio, Robben Ford, hoje consulto ao Mozart Mello, ao Faíska, ao Ulisses Rocha que são meus contemporâneos, mas graças a um talento que não tenho andaram anos luz e deixam um lindo rastro de conhecimento para que eu possa ir colhendo com esse convívio… Mas quando o bicho pega e me sinto órfão, pego telefone e ligo pro meu guru: Heraldo do Monte. Ele sempre resolve…

Você tem se apresentado em formato de trio (guitarra, baixo e bateria). O que motiva manter esse tipo de formação de banda?

André Christovam – Meu trio na realidade é um quinteto. Baixo, bateria, guitarra, minha voz e o silêncio. Não tocar é tão importante quanto o que tocar. Dinâmicas e interação, a arte de um ouvir ao outro enquanto se reinventa é a busca. Mas como sou um chato e me canso muito rápido do que sei e toco, adotei a ideia de ter um solista, um convidado de voz firme que traga uma grande contribuição à minha música com sua visão fresca do nosso material. Tem sido assim com Faíska, Cassio Polleto, Michel Freidenson… É uma delícia estar ali e ver os caras proporem novos diálogos para palavras tão antigas.

Você sempre citou os ícones do blues e Eric Clapton como influências marcantes. E hoje em dia, que tipo de som você costuma ouvir?

André Christovam - Ouço muita coisa que as pessoas nem sonham, mas vamos ao óbvio: Comecemos pelos guitarristas: John McLaughlin, Wayne Krantz, Pat Martino, Pat Metheny, os mais recentes Oz Noy, Kurt Rosenwinkel, John Herrington. Os pianistas (minha grande paixão) John Medeski, Michel Camilo, Gonzalo Rubalcaba e os eternos, Bill Evans, Herbie Hancock e Wynton Kelly. Ouço música indiana, africana, muita música erudita (Bach sendo o favorito dessa semana…), mas Bartok (String Quartets) e Vaughn Williams sempre ao alcance no IPod… Ouço Edu Lobo, Lenine e João Bosco, ganho muitos Cds e tiro um dia para absorver cada um: Fernando Mello e Luiz Bueno do DUO FEL me presentearam com seus trabalhos solo e estou encantado com a assinatura individual de cada um… Mas meu maior ídolo, o artista que mais me agrada aos ouvidos é o Miles Davis, em particular o período 1967/1973. Um desbunde!

Quais são seus planos atuais na música?

André Christovam – Honestamente? Pagar as contas e educar meus filhos com meu trabalho sem ter que sair do país. No mais, tocar com meus amigos que por acaso, são alguns dos melhores músicos do meu País! Aprender sempre seria a resposta mais correta, talvez…

Arnaldo Dias Baptista – Um eterno mutante da música

Não é fácil entrevistar e escrever sobre uma figura da música com a qual você se identifica musicalmente. E, no meu caso, minha difícil missão era entrevistar Arnaldo Dias Baptista, que vem realizando uma turnê com o projeto Sarau o Benedito, passando por Porto Alegre e por vários pontos do interior e do Litoral Paulista, para encerrar na Capital, em grande estilo, com dois shows que misturam a música com as artes plásticas.

Fundador dos Mutantes nos anos 60, Arnaldo manteve uma trajetória singular na música. Mesmo depois de permanecer alguns anos afastado da mídia, continuou sendo reverenciado pela crítica e público. E não há como explicar tal fenômeno se não for pela força de sua arte na música.

Explicar Arnaldo Baptista em poucas linhas é uma tarefa impossível. Seu trabalho nos Mutantes foi um dos mais ricos da nossa música. Uniu de forma genial o humor com uma musicalidade extremamente intuitiva, ao lado de Rita Lee e do irmão Sérgio Dias Baptista. Ao sair da banda, em 1974, ficou um pouco mais introspectivo e gravou um disco, Loki?, que é apontado como uma das mais geniais manifestações artísticas. Entrou em um processo de depressão e chegou a tentar o suicídio no início dos anos 80, se jogando da janela do quarto andar de um hospital psiquiátrico. Sobreviveu milagrosamente, tendo uma recuperação que foi acompanhada de perto pela sua atual mulher, Lucinha.

Passou a ser reverenciado por nomes como David Byrne, Kurt Cobain (Nirvana, já falecido) e Sean Lennon (filho de seu ídolo maior, John Lennon) Seu último disco, Let It Bed, produzido por John Ulhoa, do grupo Pato Fu (outro fã confesso), foi apontado como um dos melhores trabalhos da última década. O documentário Loki, que mostrou a sua trajetória de vida, ganhou 14 prêmios. E durante esse ressurgimento, ele ainda encontrou a pintura pela frente para expressar a sua arte.

Hoje em dia, Arnaldo trabalha no material de mais um disco, batizado provisoriamente de Esphera. Aguarda patrocínio para poder lançá-lo no mercado. Enquanto isso não acontece, ele percorre o País com o show Sarau o Benedito?, que une as artes plásticas com a música. O cenário é composto por desenhos de seus quadros. O repertório revisita parte de sua rica obra musical, como Jesus Come Back To Earth, Balada do Louco, Ce Tá Pensando Que Eu Sou Loki?, Desculpe, entre outras pérolas, somente acompanhado por um piano. Confira a entrevista especial que o músico concedeu para o site Lérias.

LériasNa sua opinião, o que atrai tanto esse culto em torno de sua obra musical?
Arnaldo Baptista – Nós vivíamos intensamente as experiências musicais naquele período inicial. Tudo o que fizemos naquela época era autêntico. Nós experimentávamos recursos eletrônicos, como os pedais wah-wah, que eram uma novidade. Meu irmão, Cláudio, fabricava instrumentos. Montou uma guitarra para o Sérgio e um baixo para o Liminha, entre outros equipamentos. Creio que todo esse avanço acabou deixando a sua marca na nossa cultura. Hoje em dia, as pessoas, inclusive no exterior, reconhecem e muito o valor dos Mutantes e do Arnaldo solo.

LériasHá muita lenda em torno do seu primeiro disco, Loki?, de 1974. É verdade que ele foi gravado praticamente ao vivo no estúdio?
Arnaldo Baptista – Foi exatamente isso. Nós gravamos tudo de uma vez só. Eu toquei com Liminha no baixo e com o Dinho na bateria, que eram dos Mutantes. Um pouco depois, o Liminha pediu para repassar a parte do baixo, pois não estava satisfeito com o resultado. Eu não deixei e ficou do jeito que eu queria. Loki foi uma experiência muito gratificante. Mas foi diferente do Singing Alone, no qual eu toquei todos os instrumentos. Aí eu tive o comando total de todas as ações.

Lérias – Como foi que surgiu o projeto Sarau o Benedito?
Arnaldo Baptista – Fiz recentemente um show para 150 pessoas, somente acompanhado com o piano. E a sinergia foi imediata. A partir daí, a coisa foi crescendo. Passamos a lotar teatros pelo País afora. As pessoas queriam ver o Arnaldo em ação no palco. E creio que o piano acabou sendo o instrumento mais adequado para poder sintetizar esse retorno aos palcos. Usamos como cenários desenhos das minhas telas. Então, a interação foi completa.

Lérias – Em suas entrevistas, você faz questão de defender os equipamentos valvulados, apesar de estarmos em uma era digital. Por que?
Arnaldo Baptista – Ótima pergunta. É porque os equipamentos com válvula tem um resultado sonoro mais consistente. O som grave fica muito mais nítido,l fácil de se identificar. Nos equipamentos digitais convencionais, é produzida uma miscelânia sonora tamanha, que você passa a não entender mais como o som é produzido. Mas não sou contra a modernidade. É apenas uma questão de gosto mesmo.

Lérias – Está nos seus planos se aventurar no mundo da Literatura?
Arnaldo Baptista – Sim. Estou estudando um projeto para escrever um livro. Mas ainda não tenho previsão para concluí-lo.

Lérias – E quanto ao disco novo, alguma ideia de quando será lançado?
Arnaldo Baptista – Já tenho sete faixas prontas. O disco deve se chamar Esphera. Algumas dessas faixas novas eu toco no Sarau. Estamos trabalhando para ver se lançamos ele em 2013.

Lérias – É verdade que você tem uma relação sentimental com a cidade de Santos?
Arnaldo Baptista – Vou te contar uma coisa: meus pais se conheceram em Santos. Na minha infância e adolescência, andei muito pelo Litoral, que tem Santos, São Vicente, Guarujá e outras cidades muito bonitas. Depois, como músico, me apresentei muitas vezes. Fazia muito tempo que não tocava em Santos. Estou bem ansioso para mostrar esse trabalho também na Capital Paulista. É como digo naquela canção: eu sou velho mais gosto de viajar por aí.