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Disco de Cabeceira – Kiko Zambianchi (Disco Novo, 2001)

Kiko Zambianchi é um daqueles casos difíceis de explicar. O cara estourou em 1985 com dois hits radiofônicos poderosos. Mas desde então desenvolve uma carreira errática, sempre pontuada por momentos brilhantes e de relativo sucesso popular. Além disso, suas composições sempre foram requisitadas por outros artistas.

 

Em 2001, ele parecia estar retomando o rumo da carreira depois de um período afastado dos estúdios. Lançou um CD com o título sugestivo de “Disco Novo” pelo selo Abril Music. Mas não deu sorte, porque o selo encerrou as atividades um pouco depois. Ironicamente, esse disco é de longe o seu melhor trabalho, mais maduro e incrivelmente antenado com o rock nacional dos anos 80, movimento do qual fez parte por sinal.

 

 

O disco abre com o alto astral de “Tudo É Possível”, que  o grupo O Surto já havia gravado e incluído em trilha de novela da Rede Globo. O som da guitarra transporta o ouvinte diretamente para os anos 80. Na faixa seguinte, chamada “Upgrade”, o violão dá o tom acústico no arranjo, em uma letra com fundo romântico. “Manchas e Intrigas”, que vem na sequência, já havia sido gravada por Erasmo Carlos. E tem mesmo o pique do nosso eterno Tremendão: meio jovem guarda, meio anos 80.

 

Aí depois vem um torpedo musical chamado “Norte e Sul”. Uma verdadeira obra-prima do rock nacional. Simples, direta e eficaz. Impossível não se identificar com a letra que brinca com capitais de pontos extremos do País, além de chamar a atenção para o básico, que é dar atenção para a família e para a pessoa amada. (“…Eu queria aquele gosto de infância divertida/Eu queria aquelas tardes sem problemas na família/Talvez nunca aconteça, mas eu sou um sonhador/Sinto falta do calor de Salvador…”).

 

 

Mas o tal “Disco Novo” de 2001 não para por aí. Segue o rumo certo com a balada “A Nossa Música”, quando Kiko clama por um lugar no mundo da pessoa amada. E vai mais longe ainda com a ótima canção “Nirvana Psicodélico”, cujo riff matador já entrega bem o que o ouvinte var ter. “Máquina do Tempo” é outra pérola desse disco. Talvez até fosse gravada pelo Rei Roberto Carlos no filme “Em Ritmo de Aventura”, se tivesse sido composta naquela época, nos anos 60.

 

Outros destaques são “A Nave Que Ninguém Viu” (cuja letra brinca de forma poética com a presença de um objeto voador não identificado) e a ótima cover de “Desculpe”, do mutante Arnaldo Baptista. Esse disco merecia ser relançado urgente!

 

 

Disco de Cabeceira – Virgem (Marina Lima, 1987)

Vasculhando minha modesta coleção de discos, me deparei com uma pérola que representou o auge da cantora e compositora Marina Lima na década de 80. Virgem, o disco, é de longe um dos melhores trabalhos da artista, que aliás era unanimidade de público e de crítica.

 

Marina vinha vivenciando uma curva ascendente na carreira. Gravou discos bem aceitos pelo público (Fullgás, Todas e um álbum ao vivo). Mas, como de costume, ela não gostava de se acomodar. Preferia trabalhar com pessoas diferentes em cada turnê. No estúdio, a situação era a mesma.

 

 

A produção de Virgem ficou a cargo do músico Léo Gandelman, que já vinha tocando com Lulu Santos e também desenvolvia uma fértil carreira solo como instrumentista na linha jazz. A química entre as canções iluminadas de Marina com a técnica e precisão de Gandelman rendeu um dos melhores trabalhos do ano de 1987.

 

O disco abre de forma introspectiva com Pseudo-Blues, uma letra que parece inspirada na poesia marginal de Cazuza em alguns versos. Na faixa seguinte, ela vai no rock´n roll básico de Zerando, que segue a linha do hit Prá Começar (tema da novela Roda de Fogo).

 

Aí então vem a faixa Preciso Dizer que Te Amo (de Cazuza, Dé e Bebel Gilberto). Uma das melhores interpretações da carreira de Marina, que contou com uma produção incrivelmente inspirada de Gandelman. Um clima musical meio Sade Adu, que caiu como uma luva na voz cool de Marina.

 

Hearts, um hit romântico dos anos 70, ganhou uma ótima releitura de Marina, tendo o violão como ponto de partida no arranjo. Em Prestes a Voar Marina flerta novamente com o rock básico e crú.

 

Virgem, a faixa título, é um hino da carreira de Marina. As sacadas na letra do irmão e parceiro constante, Antônio Cícero, foram bem assimiladas pelo público na época, como por exemplo, a citação do hotel com o nome da irmã (…o Hotel Marina quando acende/Não é por nós dois/Nem lembra o nosso amor…).

 

O álbum segue com o hit supremo daquele verão. Toda estação de rádio FM do Brasil tocou Uma Noite e meia, canção do baixista Renato Rocketh, que inclusive canta a canção em dueto com Marina no disco, atendendo um convite gentil da cantora. A canção Confessional é um momento mais acústico , onde o violão dá o tom no início.

 

Doce Espera, que Maria Bethânia havia gravado no disco Dezembros, é a minha faixa preferida. Tem uma introdução de cunho jazzístico, que se associou de forma brilhante a melodia e aos versos simples da parceria de Marina e Antonio Cícero, que revelava apenas a saudade da pessoa amada (A vida é dura/quando se espera alguém/A vida é fria/Quando esse alguém não vem…).

 

O disco poderia ter encerrado aí. Mas Marina ainda tirou uma canção da manga. 1º de Abril conclui o álbum de forma brilhante. E Marina ainda gravaria depois o disco A Próxima Parada, que marcou o fim da chamada década de ouro da cantora, onde ela reinou realmente de forma absoluta no coração do público e da crítica.

 

 

1) Pseudo-Blues; 2) Zerando; 3) Preciso dizer que te amo; 4) Hearts 5) Prestes a voar; 6)Virgem; 7) Uma Noite e Meia;  8) Confessional; 9) Doce Espera; 10)1º de Abril.

 

 

Disco de Cabeceira – Erasmo Carlos (Carlos, Erasmo – 1971)

A primeira vez que ouvi falar no tal disco bicho-grilo do Tremendão Erasmo Carlos, de 1971, foi na época da faculdade, na segunda metade da década de 80. Um colega disse que eu precisava ouvi-lo porque era algo incrivelmente bem feito, no qual Erasmo flertava com o samba, calipso e ainda fazia até citações metafóricas à maconha. E é preciso lembrar que o disco foi lançado em plena vigência do Governo Militar, quando a censura era da mais brabas.

 

Ouvi a versão em vinil do disco Carlos, Erasmo (esta é a grafia correta do título do álbum). E realmente gostei muito. Foi um passo bem mais ousado no plano musical do que os rumos seguros do estilo romântico que seu parceiro Roberto Carlos havia escolhido.

 

O disco não tem só composições da dupla Roberto e Erasmo. Há canções de Caetano Veloso (“De Noite na Cama”, com arranjo calcado no samba e no uso de berimbaus), Taiguara (“Dois Animais da Selva Suja da Rua”), entre outros.

 

Há um dueto antológico com a cantora Marisa Fossa, na faixa “Masculino, Feminino”, cuja melodia cola nos ouvidos e na mente logo na primeira audição. Incrível como decorridos 40 anos desta gravação, ela permaneça ainda tão perene e atual.

 

É preciso lembrar que no disco anterior, de 1970, Erasmo já sinalizava com algumas mudanças de forma discreta. Um dos sucessos daquele trabalho foi o samba-rock “Coqueiro Verde”, que hoje é o nome de seu selo próprio de produção musical.

 

Voltando ao disco de 1971, Erasmo Carlos estava mesmo aberto para experimentar novas fórmulas musicais. Ele acompanhou de perto o movimento Tropicália e sempre se identificou com o estilo samba-rock. E queria traduzir aquilo em um disco seu.

 

Com o eterno parceiro e amigo Roberto Carlos, ele assina algumas canções do álbum, entre elas, estão “Em Busca das Canções Perdidas nº 2″ e “É preciso dar um Jeito Meu Amigo”, ambas com letras densas, que refletiam uma certa angústia típica dos anos de chumbo da década de 70 (…eu cheguei de muito longe/e a viagem foi tão longa/e na minha caminhada/Obstáculos na estrada/mas enfim aqui estou…).

 

Mas o que mais surpreende é a hilária letra de Maria Joana, também assinada pela dupla Roberto e Erasmo, com acompanhamento ritmico e vocal da Caribean Steel Band. (…eu quero Maria Joana/Eu sei/Que na vida tudo passa/O amor/Vem como nuvem de fumaça…). Incrível como uma letra com citação tão direta ao uso do entorpecente tenha passado pelos rigorosos censores da época.

 

“Carlos, Erasmo”, o disco, ainda continua produzindo seus fãs. Entre os mais recentes está Wilson Simoninha, que o apresentou como sendo um dos referenciais de sua formação musical.

 

Esse disco na verdade foi a prova concreta de que o Tremendão se libertava da ingenuidade da Jovem Guarda para não ficar sentado à beira do caminho, vendo o tempo passar. Ele fez e ainda faz história dentro da música.

 

Optei por postar o vídeo com o áudio de “Masculino, Feminino”, que até hoje não me canso de ouvir. Confiram agora:

 

 

Disco de Cabeceira – Open The Door (Roger Hodgson, 2000)

O disco que ganha uma resenha nessa seção hoje é, propositalmente, um que não foi lançado no Brasil. Um protesto solitário, porém honesto. Afinal, a política que as gravadoras adotaram ao longo dos anos, visando o lucro fácil, acabou por privar o público de algumas pérolas musicais lançadas lá no exterior.

 

“Open The Door” foi o terceiro álbum de estúdio do inglês Roger Hodgson, co-fundador da banda Supertramp. E a ausência desse título em nosso catálogo nacional é inexplicável e injustificável. O disco foi gravado em 2000 na França pela Sony, que possui ampla representatividade no Brasil. E o que é pior: os shows que Hodgson fez no Brasil foram sempre bastante concorridos. Uma prova de que seu público sempre se manteve fiel ao longo dos anos.

 

O disco é impecável do início ao fim. Se nos dois álbuns anteriores de estúdio Hodgson se mostrou aberto para experiências, neste terceiro ele abandonou isso para se entregar ao pop incrivemente eficaz que sempre produziu na época do Supertramp, com aquelas pitadas de rock progressivo.

 

A faixa “Along Came Mary”, que abre o cd, tem um violão de 12 cordas marcando o ritmo no início de forma indolente. A segunda faixa, “The More I Look”, é uma balada romântica que ganha toques melancólicos em seu arranjo. E “Showdown”, que ele já havia tocado no disco ao vivo “Rites Of Passage”, mantém o clima folk do arranjo original.

 

Aí vem a faixa “Hungry”, de longe a melhor do disco, que parece ter sido escrita em um momento difícil de sua relação conjugal. E é impossível não associar essa canção com o Supertramp. Estão lá as influências musicais explícitas dos Beatles e dos Beach Boys (nas harmonias do coro). E o solo de sax do início dá aquele toque saudosista, mas sem soar ultrapassado.

 

As faixas ‘The Garden” e “Death And A Zoo” são as mais progressivas, juntamente com a faixa título. Elas têm arranjos mais experimentais do que as demais, que têm formato pop radiofônico mais definido.

 

Vale a pena citar ainda as três baladas que completam esta breve obra-prima: “Love Is A Thousand Times”, “For Every Man” e “Say Goodbye” são primorosas e só atestam a competência de Hodgson como compositor e intérprete. Ele é dono de um dos falsetes mais privilegiados da história do rock mundial.

 

Alguns críticos falam que Hodgson vive muto do passado, que em seus shows canta só as canções da época do Supertramp. Mas se ouvissem “Open the Door” com atenção, certamente perguntariam por que ele não lança disco com inéditas com mais frequência? Talvez, porque não tenham dado a devida chance para o artista seguir o rumo certo da carreira.

 

Por sorte, o Youtube disponibilizou o clipe original de “Hungry”. Ei-lo aqui para vocês conferirem:

 

 

 

 

Disco de Cabeceira – The Doors (1967) – 40 anos sem Morrison

Há 40 anos, Jim Morrison, vocalista da banda The Doors, deixava esse mundo para se tornar um dos maiores mitos da história do rock. Seu legado musical, ainda que breve, acabou deixando marcas profundas, influenciando várias gerações de músicos. Por conta disso, tomei a liberdade de indicar nessa seção o antológico álbum de estreia da banda, gravado em 1967.

 

O disco, que leva apenas o nome da banda no título, criou uma espécie de marca registrada, calcada na voz grave e forte de Morrison, que também era o principal letrista do grupo. Mas é preciso ressaltar o trabalho do tecladista Ray Manzarek e do guitarria Robbie Krieger, ambos talaentosos, assim como o baterista John Densmore, que por sinal se inspirou na batida da nossa bossa nova em um compasso mais acelerado para o arranjo final de “Break On Through (To The Other Side)”, a incrível faixa de abertura do álbum.

 

Nas músicas seguintes, “Soul Kitchen” e “Crytal Ship”, Morrison parece ligar um campo magnético que prende o ouvinte do início ao fim das faixas. “Twentieth Century Fox” conta com toques de rock psicodélico, que já ensaiava um movimento na época.

 

Na sequência vem “Alabama Song (Whisky Bar)”, com seu clima meio vaudeville, meio rock. Mérito de Manzarek, que encontrou essa canção dentro de uma peça teatral de Bertold Brecht, com música de Kurt Weill. E imprimiu o clima de bar esfumaçado no anos 40/50 no arranjo do teclado.

 

“Light My Fire” dispensa apresentações. Foi o primeiro hit da banda, apesar dos seus mais de seis minutos de duração. Para as rádios, a gravadora convenceu os músicos a divulgarem uma versão editada mais curta, que acabou estourando nas paradas de sucesso da época.

 

O blues está representado nesse álbum por “Back Door Man”, canção de Howlin Wolf. E essa receita (The Doors + Blues) se repetiria em quase todos os discos da banda, inclusive o derradeiro lançado com Morrison,” L.A. Woman”, no ano de 1971.

 

“I Looked You”, por incrível que pareça, tem um clima meio inspirado pelos Beatles, com vocais em coro e a guitarra e os teclados ditando o ritmo o tempo inteiro.

 

“End Of The Night” volta a trazer o tom sombrio no disco, que depois volta ao rock básico dos anos 60 em “Take It As It Comes”.

 

A longa faixa final (de mais de nove minutos) foi apropriadamente chamada “The End”. Tem temática edipiana e acabou sendo utlizada anos mais tarde pelo diretor Franci Ford Coppola no filme “Apocalipse Now”. Nos shows ao vivo da banda, este era sempre um dos momentos mais fortes da apresentação.

 

No final, a receita do The Doors estava ali, cristalizada naquelas dez faixas mágicas. As portas da percepção estavam escancaradas de vez para a história do rock. Listar os nomes de bandas e artistas influenciados por eles levaria um tempo enorme aqui. Só para citar alguns exemplos, temos Echo & The Bunnymen, The Cure, The Cult e Stone Temple Pilots. O fato é que o legado do grupo segue vivo e cada vez mais atual.

 

Confira abaixo o vídeo de “Break On Through”, lançado na época do disco:

 

 

Disco de Cabeceira – Thriller (Michael Jackson, 1982)

Parece mentira que já se passaram dois anos da morte do Rei do Pop, Michael Jackson. E por conta disso, creio que seria justo colocar nessa seção um dos seus discos mais emblemáticos, talvez o seu melhor trabalho. “Thriller” não só bateu recordes de venda em todo mundo, como trouxe uma receita musical infalível, que visava unir a música com a imagem. Michael Jackson ajudou a redefinir a era do videoclipe com produções antológicas, que até hoje servem como referência para artistas da música pop.

 

É bem verdade que parte da crítica prefere apontar “Off The Wall”, o disco anterior, como o melhor álbum. Mas também é fato que “Thriller” (o sexto da discografia solo de Michael) conseguiu unir a popularidade com um padrão de qualidade indiscutível. Merito do produtor Quincy Jones, que transformava os discos em ouro com seu toque de midas naquela época.

 

O disco tem essencialmente canções pop, com influência da soul music e do rock em alguns momentos. Vale lembrar que Michael integrou os Jacksons 5, banda formada com os irmãos ainda nos anos 60, que vinha da escola de soul da gravadora Motown.

 

Mas em 1982, Michael estava alçando voos mais altos. Seu carisma e incrível presença de palco serviram para atiçar um número cada vez maior de fãs por todo mundo.

 

“Thriller”, o disco, reúne canções que permanecem como clássicos: “Billie Jean”, “Beat It” (com solo de guitarra de Eddie Van Halen), “The Girl Is Mine” (dueto com Paul McCartney), “Human Nature” (que até o mestre do jazz, Miles Davis, regravaria em seguida), além da faixa título, composta por Rod Temperton, que ganhou um vídeo com mais de 10 minutos na MTV, com ares de superprodução cinematográfica de Hollywood, com direito a uma parte falada por ninguém menos do que o ator Vicent Price, ícone dos filmes de terror.

 

O clipe de “Beat It” homenageou o musical West Side Story, enquanto que em “Billie Jean” Michael narra a história de um homem que a acusado de ser o pai de uma criança.

 

 

As demais que constam no disco, como “Baby Be Mine”, “PYT”, “The Lady In My Life” e” Wanna Be Startin´ Something” (esta última uma crítica à indústria da fofoca na imprensa, que acabaria por quase arruinar com sua carreira nos anos seguintes) segum um padrão semelhante ao de “Off The Wall”, o que não desmerece o conjunto do álbum “Thriller”.

 

O que marcou mesmo em “Thriller” foi a união do pop, ou seja, atingir as massas, com o padrão de qualidade elevado. Escute com atenção o arranjo de “Billie Jean”, por exemplo, e você perceberá grandes sacadas nos vocais e na instrumentação. Soa as vezes quase jazzístico, de tão eclético que ficou o resultado final.

 

Nos anos seguintes, Michael lançaria alguns álbuns com ares de superprodução musical (“Bad” e “Dangerous”, por exemplo). Mas nunca conseguiu repetir o mesmo êxito de “Thriller”. Segundo alguns amigos seus famosos, esta teria sido a sua maior frustração na carreira, além dos seguidos escândalos de abuso sexual contra jovens, dos quais teve que justificar perante a Justiça americana em mais de uma ocasião.

 

Pouco antes de morrer, estava preparando uma volta triunfal aos palcos no espetáculo “This Is It”. Mas ele morreu no dia 25 de junho de 2009, vitimado por uma parada cardíaca provocada pelo uso de medicamentos para dormir. Uma pena que o Rei do Pop não tenha tido tempo para refletir bem no que já havia sido produzido para buscar novos horizontes musicais no futuro.

 

Ficou muito difícil escolher um vídeo para ilustrar este disco. Optei por “Billie Jean”, que foi a primeira música desse disco que ouvi nas rádios.

 

Disco de Cabeceira: Dois (Legião Urbana, 1986)

Há 25 anos, a Legião Urbana lançava o seu segundo disco, chamado simplesmente “Dois”. Um álbum emblemático, que trazia a poesia de Renato Russo em um momento de amadurecimento. Não é por acaso que esse é sempre apontado pelos fãs como o trabalho mais completo em termos de canções.

 

No contexto nacional, o País atravessava um momento de transição política, iniciando o primeiro Governo pós-Ditadura. Na música, o rock nacional tomava conta das rádios. Um ano antes, o “Rock in Rio” consagrou bandas brazucas, como Paralamas do Sucesso e a Blitz.

 

A Legião Urbana vinha de Brasília, como outros grupos da época (Paralamas, Capital Inicial e Plebe Rude, só prá citar três exemplos). Seu primeiro disco ainda era algo em estado bruto, mas já haviam emplacado três hits nas rádios (“Será”, “Ainda é Cedo” e “Soldados”).

 

 

No segundo, Renato e seus companheiros de banda (Dado Villa-Lobos, Marcelo Bonfá e Renato Rocha) tiveram mais tempo para produzir. Isso fica fácil concluir logo na primeira faixa, “Daniel na Cova dos Leões”, cuja letra revelava as angústias de Renato de forma metafórica.

 

Um detalhe que chamou a atenção é que nesse segundo disco há mais violões acústicos e menos guitarras, ao contrário do primeiro, quando o instrumento elétrico predominou em quase todas as canções.

 

A segunda faixa, “Quase Sem Querer”, se tornou um hit instantâneo nas rádios dos anos 80 . De melodia simples e letra extensa, a composição de estilo folk de Renato mostrava o ponto de vista de adolescentes (…Quantas chances desperdicei/Quando o que eu mais queria/Era provar pra todo o mundo/Que eu não precisava/Provar nada pra ninguém…).

 

“Acrilic On Canvas” é de uma beleza singular, melancólica e suave. E aí depois vem uma canção com o trovador solitário Renato Russo, gravada apenas com voz e violão. “Eduardo e Mônica”, que tocou até a exaustão nas rádios, recentemente voltou a cena com o comercial da Vivo (veja vídeo abaixo).

 

 

 

O disco fecha com a instrumental “Central do Brasil” e mais um hit instantâneo: “Tempo Perdido”, que mexe com o ponto de vista do adolescente (Todos os dias quando acordo/Não tenho mais/O tempo que passou/Mas tenho muito tempo/Temos todo o tempo do mundo…).

 

Na sequência, “Metrópole” coloca novamente a guitarra em primeiro plano, para depois cair na versão seminal de “Música Urbana 2″, com letra de conteúdo cético.

 

O destaque desse trecho do álbum vai para “Andrea Dória” (outra com melodia de tom melancólico) e “Índios”, com um ótimo trabalho nos teclados e uma letra incrivelmente inspirada (…Quem me dera/Ao menos uma vez/Que o mais simples fosse visto/Como o mais importante/Mas nos deram espelhos/E vimos um mundo doente…).

 

“Dois”, o disco, cristalizava a poesia de Renato Russo, que caía ainda mais nas graças do gosto popular. Foi um disco importante, que provou para a gravadora que a obra do grupo permaneceria perene até os dias atuais.

 

 

Disco de Cabeceira: Who’s Next (The Who, 1971)

Em 1971, o rock vivia uma espécie de inferno astral. Um ano antes, os Beatles anunciaram o fim do sonho e do grupo, enquanto Jimi Hendrix e Janis Joplin deixavam este mundo consumidos pelos seus próprios excessos de vida. E o rock caminhava para uma direção mais pesada, seguindo a linha de bandas como Black Sabbath e Deep Purple.

 

Ao mesmo tempo, um dos remanescentes da chamada invasão britânica da década de 60, o The Who estava buscando aprimorar o seu tipo de som. Depois de produzir uma ópera-rock (“Tommy”), Pete Townshend, o guitarrista e principal compositor, começou a trabalhar em mais um ambicioso projeto, que ainda não tinha nome específico. Um punhado de canções inspiradíssimas, que buscavam narrar desventuras mundanas sob o ponto de vista de adolescentes.

 

Convencido por seus colegas de grupo e pela gravadora, Townshend aceitou gravar as canções como um disco não conceitual, como foi o caso de “Tommy”. E tínhamos então o que se tornaria “Who´s Next”, apontado como auge criativo da banda, que era (e ainda é) pura força bruta.

 

O disco, o quinto de estúdio da banda, abre com a antológica “Baba O´Riley”, cujo arranjo até hoje provoca arrepios nos ouvintes das mais variadas gerações. Uma instrumentação soberba e um vocal sempre forte de Roger Daltrey. Há que se destacar as levadas sempre geniais do lunático das baquetas, Keith Moon, e o baixo de John Entwistle, cujo apelido era Thunderfingers (dedos de trovão), por causa da incrível velocidade que desenvolvia ao tocar o instrumento.

 

Não bastasse ter um afiado time de músicos ao lado, Townshend ainda se arriscava na produção do disco, tocando os teclados e promovendo a inclusão de efeitos de estúdio que dariam um realce incrível no resultado final do disco.

 

“Bargain” e “Love Ain´t For Keeping” são criações de Townshend, que Daltrey consegue traduzir com perfeição no vocal. “My Wife”, de Entwistle, é uma canção bem animada que se integra ao material de Townshend.

 

A balada “The Song Is Over” é outro momento emocionante do disco, juntamente com “Pure And Easy”, que tem aquele clima de final dos anos 60, quando o sonho de paz e amor dos hippies havia sido adiado por tempo indeterminado.

 

“Getting Tune” e “Going Mobile” trouxeram novamente Townshend em primeiro plano. Mas em “Won´t Get Fooled Again” a banda se supera mais uma vez ao criar um dos hinos mais conhecidos do rock. Não há roqueiro no mundo que não se impressione com a força que essa canção possui.

 

“Who´s Next” foi o auge criativo da banda. Os discos que seriam lançados mais tarde não alcançariam a força dessa produção, que até hoje é referência para qualquer roqueiro iniciante.