Quando todos pensavam que Rod Stewart havia se acomodado na vida de crooner, fazendo diversos discos com releituras de canções antigas, eis que ele surge com um surpreendente e interessante disco autoral, intitulado Time. Um trabalho que interrompe um jejum de 12 anos sem gravar material próprio.
Nos últimos anos ele havia realizado projetos como o Great American Songbook (que teve cinco volumes lançados) e mais dois discos com clássicos do rock e da soul music. O último trabalho autoral havia sido o CD Human, de 2001. E agora, com Time, ele busca resgatar a sonoridade de sua produção dos anos 70/80. Das 12 faixas de Time, 11 são se sua autoria.
She Makes Me Happy, é um divertido rock com cores pop. No arranjo, é possível ver algumas conexões com Maggie May, um de seus primeiros hits da carreira solo. Sobretudo pela presença de sons que se assemelham ao do mandolim nos arranjos. A faixa seguinte, Can´t Stop Me Now segue na mesma toada pop, sem soar piegas.
A balada It´s Over, que já ganhou um videoclipe amplamente divulgado no youtube, não mostra muita novidade em relação ao que Rod já fez no passado. Brighton Beach é uma balada com arranjo acústico. Segue a linha de First Cut In The Deepest, de Cat Stevens, que ele gravou originalmente nos férteis anos 70. Beautiful Morning tem aquele pique de energia que ele já cantou no passado em canções como Tonight I´m Yours e Young Turks.
A faixa título (Time) parece ter sido inspirada na produção do grupo The Band, com arranjo folk bem característico. Legless é envolvente do início ao fim dentro de sua receita de pop rock com tempero soul. A balada Picture In A Frame também flerta com alguns temas do passado.
O fato é que Rod continua sendo o mesmo bon vivant de sempre. E quem ganha com isso são seus fãs, que passam novamente a ter contato com sua produção autoral de boa qualidade.
No final dos anos 70, era impossível não se emocionar com aquela voz de tom doce e firme, que entoava no final das tardes a canção de abertura da novela A Sombra dos Laranjais. O tema O Circo, composto por Sidney Müller, ficou eternizado na voz maravilhosa de Marilia Barbosa, que também interpretava uma personagem da novela, a divertida Ritoca. O que talvez poucos saibam é que Marilia, ao contrário do que se poderia imaginar, começou a dar seus primeiros passos na arte na década de 60, quando com apenas cinco anos de idade já cantava em circos e em rádios, incentivada pelos pais. Hoje em dia, ela anda mais afastada da mídia, mas não da arte. Continua desenvolvendo projetos ligados ao teatro e a televisão. Recentemente interpretou a personagem Dona Carochinha no seriado Sítio do Pica-Pau Amarelo e realizou vários projetos relacionados com a seara teatral e com a música. Nessa entrevista para o Lérias, ela conta um pouco de sua trajetória e de seus planos para o futuro.
O que motivou você a seguir o caminho da arte cênica e da musica?
O fato de ter nascido cantando. Desde que abri a boca, aprendi a cantar as músicas que ouvia no rádio e também ouvia minha mãe cantar. Nas artes cênicas, foi opção estudar, pois fui convidada por Mario Brazini que era diretor de elenco da TV Tupi do Rio para o elenco de “O doce mundo de Guida”, de Ghiaroni, famoso escritor de novelas para a Rádio Nacional, que desde os anos 50, foi o berço das “Rádio novelas”. Ele (Mario Brazini) era esposo da atriz Thereza Amayo. Foi por conselho dele que fiz vestibular na FEFIERJ (Federação das Escolas Isoladas do Rio de Janeiro), que depois passou para a UNIRIO, no antigo Conservatório Nacional de Teatro, onde funcionava no prédio da UNE, na Praia do Flamengo, que foi sede de muita confusão nos tempos da ditadura militar, nos tempos em que eu estudava lá. Se você pesquisar sobre esse assunto, vai se impressionar bastante.
Por que você se manteve afastada nos anos 90?
O fato de não aparecer muito em TV não quer dizer que estivesse afastada das artes. Fui convidada especial da montagem oficial de “O Vestido de Noiva” de Nelson Rodrigues, que marcava os 50 anos do teatro moderno no Brasil. Fui convidada especial das celebrações dos 50 anos de Brasília, com show para mais de 50 mil pessoas, fiz o show “Nos Tempos de Pixinguinha” no Teatro Nacional de Brasília com muito sucesso e logo depois, em 1997, fui morar nos Estados Unidos. Estou citando apenas as atividades que têm contexto histórico.
A trilha da novela “À Sombra dos Laranjais”, de 1977, teve uma participação direta sua. Conte como foi essa oportunidade.
A trilha foi uma ideia minha que dei a Herval Rossano, com o aval do João Araújo, presidente da Som Livre. Produzi o compacto duplo, o primeiro para novelas das seis que até então não tinham trilhas gravadas. Infelizmente, meu nome não consta em nada, apesar de ter feito tudo. Para minha sorte, a música que escolhi para a abertura, fez o sucesso que fez e entrou para o rol dos “clássicos”. A canção “O Circo” é de Sidney Müller, o arranjo é do maestro Valtel Blanco, hoje no conjunto “Homem de Bem”, que toca músicas e mantras indianos.
Como foi a experiência em solo americano?
Morei em Nova York, Manhattan, por três anos. Cantei muito, escrevi e apresentei programas para a Rádio WKCR 89.9, dei entrevistas em algumas rádios locais, conheci muitas pessoas importantes na área da música e do cinema. Fui uma moradora tranquila, uma vez que meu objetivo lá não era “ganhar a vida”, como fazem as pessoas que vão para lá em busca de vencer. Para mim, eu já havia vencido, apenas quis me afastar do Brasil por uns tempos pois havia passado por maus bocados por aqui. Fui sequestrada e passei por momentos difíceis demais de violência. Me tratei lá, onde levam a sério tragédias como essas. Voltei por não aguentar o frio e porque minha mãe cobrava a minha volta, porque tinha casa (a chácara onde morava no Rio), cachorros e empregados que mantive durante o tempo em que lá estive e a responsabilidade dos cuidados era de minha mãe. E ela já estava cansada de cuidar. Não fossem esses os motivos, eu teria ficado muito mais tempo. Lá é um lugar onde a música brasileira de boa qualidade é o que interessa para os americanos. Mas se eu fosse para lá como os artistas saem daqui para apenas fazerem umas apresentações e voltam, certamente cantaria para os brasileiros que moram lá, portanto teria que cantar essa “coisa” a que a nossa música foi relegada. Mas cantei para estrangeiros e esses, esperam o melhor de nossa cultura. Qualquer hora dessas vou passar um tempinho lá para matar as saudades.
A reação dos americanos é parecida com a dos brasileiros?
Aqui, não sei se felizmente ou não, o povo canta junto, bate palmas durante as músicas e pulam. Ninguém escuta ninguém, é o momento sócio cultural em que estamos mergulhados e esse não é o meu momento de cantar, é para ficar calada ou cantar em teatros para pequeníssimo público.
Nos anos 80 você participou de um show tributo a Aracy Cortes. Ela foi uma referência para você como cantora?
Aracy foi um marco divisório em minha vida. Antes não gostava de cantar sambas porque achava que era de outra área. Mas ter que ser Aracy no teatro, mostrou-me que estava enganada. E ela mesmo falou em coletiva da Imprensa, que eu era a única que poderia seguir com o seu legado. Desde então, já fui Aracy Côrtes na novela “Kananga do Japão” da Rede Manchete. E antes de morar aqui, fui de novo Aracy, em “Aracy Côrtes, a rainha da Praça Tiradentes”, no Teatro João Caetano, em 2008.
É verdade que você começou a gravar discos na década de 60?
Sim. Gravei em 1961 pela primeira vez, um disco que era do Clube do Guri”. Infelizmente não tenho esse disco. Em 1965, gravei na Gravadora Sivan um LP Lindo, inclusive com uma versão da música “As tears go by”, dos Rolling Stones. Em 1967, gravei na RCA Victor a canção “Modinha”, de Sérgio Bittencourt. Em 1968, lancei um LP para o dia dos namorados, pela RCA, “Para viver um grande amor”. Neste mesmo ano, pela Codil, fiz um LP de “A grande Chance” e do Festival Universitário. Fiquei 8 anos na Som Livre, fiz inúmeros discos, trilhas de novelas e o LP Filme Nacional, reeditado agora . Em 2011, participei do Tributo a Yoko Ono, com produção de Marcelo Fróes e de Johann Heyss. Este ano, gravei uma produção de Johann Heyss, “Noite Adentro”, qua ainda está para sair.
Que fato curioso aconteceu na gravação de Modinha?
Houve naquele ano, 1968, um festival onde o Taiguara venceu com Modinha e eu já havia gravado a canção ainda inédita. O diretor da RCA, Romeu Nunes, veio expor que havia acontecido o festival e que o Taiguara saíra vencedor. Então, pedi que o meu disco só saísse depois que o dele saísse. Não era ético esse furo, eu sentiria vergonha. E foi assim que aconteceu.
E quais são seus planos para o futuro?
Meu momento agora consiste em terminar as obras de minha casa aqui, em Minas Gerais. Depois disso, vou morar um seis meses na Europa, visitar amigos e mudar de cenário. Falo sério, sem mágoas, pelo contrário, vou curtir a vida mais ainda do que estou curtindo, já trabalhei demais e agora, quero escolher muuuuuito o que faço em minha profissão. Assim que sair o disco novo, vou viajar, mas por prazer. Não ralo mais por nada. Pretendo morar em Portugal como base, porque lá está acontecendo um belíssimo movimento em torno da boa música brasileira, eles chamam de MPB, Música Portuguesa Brasileira. Não tenho planos para teatro ou TV. Para isso teria que voltar para o Rio e isso eu não quero. Em TV, apenas participações especiais. Faria cinema, sim, pois é vapt-vupt e volta-se para casa. Não é obrigatório ficar no Rio, de onde quero ficar longe, pois hoje é praça de guerra. Lamentavelmente.
Entrevistar um artista com uma carreira extensa, respeitada pelo público e crítica, é sempre uma responsabilidade redobrada. Mas Guilherme Arantes, autor de canções que marcaram várias gerações, como Meu Mundo e Nada Mais, Extase, Cheia de Charme e Planeta Água, entre tantas outras, é uma pessoa muito simples, do tipo que deixa o entrevistador bem a vontade. Ele acabou de lançar um disco com músicas inéditas (Condição Humana). E parece mais um garoto de 20 anos, ao invés de aparentar um senhor de quase 60. A tal fonte da juventude, segundo ele, vem através da música, que resgata uma sonoridade dos anos 80 e mantém um clima otimista, bem prá cima nas letras. Confira a entrevista que o músico concedeu especialmente para o Lérias
Condição Humana tem o tempo como tema frequente nas letras das canções. O que motivou você a seguir essa linha de criação?
Por causa do momento da minha vida, chegando nos 60.
No disco voce conta com músicos experientes, como o Luiz Carlini e o Willy Werdaguer. Esta será sua banda de apoio em shows ao vivo?
Sim, essa é a banda, com Gabriel Martini na bateria e Alexandre Blanc na outra guitarra. Como foi a participação dos nomes da nova geração nesse disco? Há chance de novos trabalhos com eles no futuro?
Foi muito emotiva, comemorativa de afinidades. É legal ver que temos uma turma, que vamos poder nos reunir várias vezes no futuro. Claro que espero ter muitas parcerias com eles, para retribuir esse gesto deles.
O som desse disco lembra mesmo a fase pop dos anos 80. Você sentiu necessidade de resgatar aquela sonoridade?
Acho que o público cobra também, pois foi muito marcado geracionalmente por esse som que se fazia nos 70.
O que muda com a criação de um selo (ou gravadora) próprio, no caso, o Coaxo do Sapo? Como você avalia o mercado fonográfico nos dias de hoje?
Mudou toda a logística de lançamento, a gente tem que se virar, produzindo todas as fases do trabalho. A indústria tinha muitas vantagens, era muito bom ser popstar, estar numa “escuderia”, numa grande gravadora era como estar numa ferrari, num Barcelona, a gente era muito cobrado e muito sortudo também… mas sofremos muitos fatores questionáveis, interferências…
Você fez diversas trilhas e colaborações em produções de cinema. Há planos de compor algo novamente para esse segmento da arte?
Com certeza, quero ter muitas presenças em trilhas, é sempre uma alegria, até em encomendas com roteiro préestabelecido. Como estão os planos para shows ao vivo?
Vamos à luta, com uma banda ótima, um disco motivado, acho que vai ser uma delícia.
Que mensagem você gostaria de passar para os leitores e admiradores de seu trabalho?
Que estou muito feliz de trazer um novo disco “pra cima”, das músicas estarem agradando quem já ouviu.Temos um longo caminho pela frente.Tenho muita gratidão a esse público e à receptividade enorme, ao longo de tantas décadas.
Guilherme Arantes está de volta com o disco Condição Humana, o seu 22º de estúdio e o primeiro lançado pela sua própria gravadora (Coaxo de Sapo). E valeu a pena esperar. Os fãs e o público em geral vão gostar do resultado final, que confirma a competência do artista para compor canções com mensagens diretas e bem elaboradas.
Para essa volta aos estúdios, Guilherme Arantes contou com o auxílio de alguns artistas da nova geração, como Marcelo Jeneci. Como ele mesmo explicou no seu site oficial, “é o som do Guilherme, com a sonoridade única da virada dos 70 para os 80, está de volta. Desta vez foi mandatório não fazer nenhuma concessão e não ficar ouvindo abobrinha de nenhum produtor que tenha caído de paraquedas no meu trabalho”.
A faixa-título (Condição Humana) e Onde Estava Você abrem o CD no estilo pop que consagrou o músico no final dos anos 70. Basta lembrar dos hits Lance Legal e Cheia de Charme que você já começa a ver por onde Guilherme anda levando seu som. O tempo é tema frequente em todas as letras.
Vale destacar que Guilherme se cercou de um time de músicos experientes, como Luiz Sérgio Carlini (guitarrista, que formou o Tutti -Frutti com Rita Lee nos anos 70) e Willy Werdaguer (baixista que integrou a banda de apoio do Secos e Molhados e o Raices de América, entre outros trabalhos), entre outros.
Tudo que Eu Fiz Só Por Você é uma balada romântica, com letra inspirada e simples (…uma canção vai lembrar que eu te amo…). O mesmo vale para Oceano de Amor, que não tem nada a ver com Oceano, do disco de 1985. Trata-se de mais uma balada romântica, que usa como pano de fundo a natureza para escrever mais uma pérola musical (…eu rodava o mundo atrás do sol/atrás da lua que voava pelo céu/e lá estava você/Sorrindo, brilhando…).
Moldura do Quadro Roubado e Olhar Estrangeiro são animadas, com arranjos bem feitos, com astral lá em cima. Você Em Mim é uma balada se encaixa com perfeição na sonoridade dos anos 80. É uma das minhas preferidas, junto com a faixa-titulo, que me conquistou logo na primeira audição. Destaco também outra balada – Casteno do Reino, que começa somente com Guilherme cantando ao piano. Dá para imaginar essa canção sendo tocada nos shows ao vivo.
O Que Se Leva é uma mensagem para que as novas gerações percebam que o tempo não para. E que é importante viver sempre o presente com intensidade (O tempo traz/O que você não esperou/e nem percebeu que não volta mais/Viveu, passou, morreu…O que se leva é amor…).
Condição Humana é um disco muito interessante, pois representa uma chance para as novas gerações esquecerem um pouco esse lixo musical que somos obrigados a ouvir de forma quase que cíclica desde os anos 90 no Brasil. Os modismos passam, uns mais tarde, outros mais cedo. Mas a boa música, como a de Guilherme Arantes, permanece imune a ação do tempo.
Concluo com o final do texto que o próprio Guilherme postou no seu site sobre o disco. “Jovem é quem corre para a morte. Velho é quem foge dela. Se estou correndo para a morte, ansiando pelo tempo que me resta correr veloz, então ainda sou jovem. Se estou tentando evitar a morte, se procuro qualquer atalho ou ponte para atravessar o destino inevitável, então estou velho. Não à toa, com este disco eu me sinto de novo com 20 anos”.
Outra informação bem bacana é que no seu site oficial (www.guilhermearantes.com.br) você pode ouvir toda a discografia dele em soundcloud. E dessa forma, Guilherme faz com que pessoas com mais de 40, como é o meu caso, se sintam com 20 anos novamente. Uma espécie de fonte da juventude musical.
Quando tive acesso ao disco mais recente do bluesman Magic Slim, nem me passava pela cabeça que aquele poderia acabar sendo o último trabalho dele. Bad Boy, um disco recheado de ótimas versões de clássicos, com solos bem ao estilo da escola do blues elétrico de Chicago. Acabou sendo uma despedida bem digna para a história do músico, que faleceu em fevereiro deste ano, nos Estados Unidos, vitimado por uma série de problemas de saúde.
O verdadeiro nome de Magic Slim era Morris Holt. Ele nasceu no Mississipi e trabalhou uma fazenda de algodão. Ali perdeu parte de um dos dedos da mão direita, o que fez ele desistir de aprender a tocar piano e começar a conhecer a guitarra como extensão de sua musicalidade.
Quem pôde conferir aquela figura enorme e simpática ao vivo – ele veio algumas vezes para o Brasil, uma delas em Santos, no Litoral Paulista – podia perceber que estava presenciando uma lenda do blues. O vocal firme e os solos de guitarra deixavam claro o lugar que Magic Slim ocupava nesse estilo musical.
Nos últimos shows, Magic Slim só vinha se apresentando sentado por conta dos efeitos da idade relativamente avançada – ele morreu com 75 anos. Mas a velha pegada na guitarra continuava intacta, como o ouvinte poderá conferir nas 12 faixas desse seu último disco.
A faixa título ( Bad Boy) parece ser sido feita sob medida para tocar ao vivo, com seus backing vocals cheios de energia e de fácil memorização. Nas duas faixas seguintes (Someone Else Is Steppin’ In e I Got Money), o mestre destila uma técnica incrível nos solos.
Sunrise Blues é uma pintura. Começa com o solo bem ao estilo de Chicago, e segue com o seu vocal rouco e característico. Hard Luck Blues mostra influência de Muddy Waters, outro mestre so estilo, com arranjo arrastado e cheio de feeling nos solos. Outra faixa que segue a linha dos mestres é Older Woman, que já lembra a linha de Elmore James no arranjo e no solo de guitarra.
Bad Boy é um baita disco. Pode até ter sido uma despedida involuntária, com tom alegre. E com certeza vai agradar todos os que curtem o melhor do que há no blues.
Ela é considerada uma das grandes intérpretes de nossa música. Mesmo não tendo o mesmo espaço na mídia de outras cantoras de sua geração, sua produção discográfica sempre primou pela ótima qualidade do trabalho. Não por acaso, ela acabou sendo recentemente redescoberta pelas novas gerações, através de uma canção do rapper Marcelo D2, que sampleou um samba gravado por ela da década de 70. Maria das Graças Rallo, conhecida artísticamente como Claudya, ficou marcada por protagonizar o musical Evita. Sua performance arrancou rasgados elogios dos produtores estrangeiros da peça, que vieram conferir pessoalmente a estreia no Brasil. Claudya desenvolve até os dias de hoje uma carreira pautada pela coerência e bom gosto do repertório escolhido para seus espetáculos, como o mais recente, no qual ela resgata standards na MPB e da música internacional de várias épocas. Confira a entrevista que ela concedeu especialmente para o Lérias:
Sua formação musical é notável, com um poder de interpretação que é elogiado pelos críticos. Onde você se moldou como intérprete?
Sempre procurei observar as cantoras de minha preferência e aprender com elas. Sempre cantei junto com elas as canções preferidas. Foi assim que me moldei como intérprete.
No início, em quem você se espelhava?
Eu me espelhava nas cantoras do rádio que faziam muito sucesso na época. Dalva de Oliveira, Ângela Maria, Maysa e outras.
Na sua discografia também há composições de sua autoria. Você ainda exercita esse seu lado autoral hoje em dia?
Sim estou sempre exercitando o ato de compor. Tive algumas oportunidades de mostrá-las em discos que gravei nos anos 70.
Evita foi um musical marcante na sua carreira, um sucesso de público e crítica. Como foi essa experiência?
Realmente Evita foi um marco na minha carreira. No espetáculo tinha que cantar, dançar e representar. Sem sombra de dúvida um espetáculo forte, denso e com um score musical muito difícil, mas muito emocionante, arrancando lágrimas de quem o assistia. Até mesmo dos argentinos. Os produtores ingleses David Land e Robert Stigwood estiveram presentes na estreia e, depois de assistirem, disseram com todas as letras. “Você é a melhor Evita de todas as que fizeram o espetáculo no mundo”.
Recentemente, o rapper Marcelo D2 usou um sampler de uma canção de seu disco de 1973, chamada Deixa Eu Dizer. O que você achou dessa iniciativa?
Foi uma experiência muito gratificante ter sido mostrada para as novas gerações por Marcelo D2. Sou muito grata pela lembrança dele.
Quais são seus planos atuais para a carreira (shows, disco novo, DVD, etc.)?
Estou atualmente com o espetáculo” As mais belas canções de todos os tempos”, no qual eu canto o melhor da música brasileira, dos standards do jazz, dos musicais e do cinema. Pretendo fazer shows em teatros maiores e viajar pelo Brasil. Faremos um CD e um DVD do espetáculo. Estamos em negociações.
Eric Clapton traz para o grande público mais um novo disco de estúdio, intitulado Old Sock (Meia Velha), que parece querer recriar os sons dos anos 70. Uma época com arranjos mais calmos, onde ele se mostra longe da loucura frenética do rock, mais próximo do pop. Os discos de estúdio mais recentes, como Back Home e Clapton, aliás, apontam para essa tendência mais pop, ao contrário de outros trabalhos temáticos mais densos, como o disco de releituras de Robert Johnson ou From The Cradle, ambos calcados no blues, sua principal influência musical.
Old Sock abre com Further On Down The Road, em ritmo reggae, que ele adora explorar de vez em quando. A ótima Gotta Get Over é uma canção suingada, com arranjo próximo da soul music. Não por acaso, ela foi escolhida como single de divulgação do disco nas rádios no exterior.
Há algumas releituras, como a de All Of Me, um clássico do cancioneiro norteamericano, e a balada Our Love Is Here To Stay, do filme Um Americano Em Paris, estrelado por Gene Kelly e Leslie Caron. Goodnight Irene é uma canção tradicional que foi gravada pelo cantor folk negro Leadbelly, um dos ídolos de Clapton por sinal. Born To Lose é outra canção do repertório de Ray Charles que Clapton recria. Ele já havia gravado Hard Times no álbum Journeyman.
A surpresa agradável do disco ficou por conta da inclusão de Still Got The Blues, que foi gravada originalmente pelo grupo Thin Lizzy e, mais recentemente, por Gary Moore nos anos 80. A regravação de Clapton ficou acima da média. E pode ter sido uma bela homenagem para Moore, que faleceu repetinamente em 2011.
Apesar da aparente tranquilidade do som de Old Sock, Clapton está longe de se mostrar um artista acomodado no seu próprio sucesso. Na última década, foram desenvolvidos vários projetos solo e em conjunto com outros músicos, como a reunião do power trio Cream e o disco em parceria com o veterano J.J. Cale, assim como a turnê com o amigo Steve Winwood. E nesse período teve ainda algumas edições do Crossroads Festival, que reúne grandes nomes da guitarra em um show beneficente em prol do projeto de recuperação de dependentes químicos e vítimas de alcoolismo, de autoria do próprio Clapton.
O desaparecimento trágico e precoce de Alexandre Magno Abrão, o Chorão, líder e vocalista da banda de rock Charlie Brown Júnior, encontrado morto aos 42 anos, em seu apartamento na Capital Paulista, na madrugada desta quarta-feira (6), deixa uma lacuna irreparável no rock nacional. Ao mesmo tempo, encerra de forma melancólica uma trajetória de sucesso, baseada em declarações polêmicas e explosivas. Mas sempre contando com o respaldo dos fãs, que nunca abandonaram o grupo.
Musicalmente, a banda sempre se manteve em um alto nível apesar das turbulências internas. Os integrantes da formação original separaram em meio a discussões durante um período. E haviam retomado a parceria recentemente em shows ao vivo. De uma certa forma, ditou uma espécie de nova estética para o rock nacional dos anos 90, abrindo portas paras tantas outras bandas que depois fariam sucesso, como CPM 22, Detonautas e Aliados 13.
O que é mais surpreendente é o fato de a banda ter vindo de Santos, Litoral de SP, ou seja, longe dos grandes centros, como a Capital Paulista e o Rio de Janeiro. Quem vive de música em Santos sabe bem o quanto é difícil conseguir achar espaço para mostrar o seu trabalho. Subir a Estrada da Serra do Mar é para poucos, costumam dizer alguns deles.
No entanto, o Charlie Brown Júnior não só subiu a Serra como ainda viajou pelos quatro cantos do mundo, tocando em festivais com grupos do naipe de Foo Fighters e Orishas, entre outros. No Brasil foi a mesma coisa. Tocaram em vários estados, sempre com a presença maciça de público, onde quer que se apresentassem.
E tem mais um detalhe importante: a banda jamais renegou o seu passado. Sempre fez questão de dizer sua origem e ressaltar o amor pela Cidade Natal e pelo time do Santos Futebol Clube. Uma prova incontestável de sua autenticidade e respeito para com o Litoral.
Mas Chorão não era um poeta, como alguns fãs andaram postando nas mensagens das redes sociais. Era um eterno moleque folgado de 42 anos, que gostava de andar de skate e fazia as inspiradas letras das canções da banda. Durante um tempo, escreveu roteiros de filmes para o cinema, tendo sido até elogiado por isso. Era desbocado ao extremo. Não tinha papas na língua e nem medo de expor seus sentimentos perante o público.
Suas mensagens eram simples e diretas, sem rodeios, como a letra da canção Só Os Loucos Sabem: “…Eles dizem que é impossível encontrar o amor/Sem perder a razão/Mas pra quem tem pensamento forte/O impossível é só questão de opinião…”
A saída precoce de cena de Chorão repete o que se vê nos últimos anos e ao longo de toda a história da música em si. Tivemos no pop e no rock internacional vários nomes que foram embora muito cedo. Mais recentemente, houve os casos de Amy Winehouse e Whitney Houston. No Brasil, um caso emblémático foi o de Cássia Eller, que havia gravado um elogiado disco acústico ao vivo na MTV e se apresentado em uma das edições do Rock In Rio, antes de falecer em dezembro de 2001.
O fim melancólico, como aconteceu nos outros casos já citados, deixa uma sensação incômoda de perda. Uma certeza de que Chorão ainda poderia produzir mais na música. Como consolo, fica somente o seu legado deixado na banda, que serviu como uma espécie de bússola para o Rock Nacional nos anos 90. Isso não é só os loucos que sabem, com certeza.