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Cala boca já morreu é a história de todos nós

Cala a boca já morreu
19 OUT
Texto escrito por: Danielle Borges

Estreou em São Paulo nova temporada de uma peça que mostra, de forma cômica, o drama de milhares de pessoas que moram na cidade da garoa. Quem cresceu aqui ou chegou depois sabe bem o que é sobreviver nesta selva de pedras, um lugar que acolhe a todos como coração de mãe, mas também ensina de forma, às vezes, severa que permanecer vivo pode ser considerado por aqui um grande êxito.

 

A peça “Cala boca já morreu” foi escrita há cerca de 50 anos por Luís Alberto Abreu e aborda os problemas sociais das grandes metrópoles, como a exploração do trabalho, a violência sexual, o desemprego e a falta de dinheiro. No palco, um grande elenco com mais de vinte integrantes da Cia. Atos e Fatos e alguns atores convidados. A montagem enche os olhos, no sentido literal. Muita informação, tudo acontecendo ao mesmo tempo e num ritmo frenético, exatamente como me sinto ao andar pelas ruas de São Paulo.

 

Em quase duas horas de espetáculo, o que mais chama a atenção é o figurino, assinado por Márcio Tadeu. Os personagens aparecem vestidos de forma a se multiplicarem em cena, novamente remetendo à confusão da cidade: uma multidão de pessoas nas ruas, no metrô, nas empresas. Gente que vemos todos os dias e não fazemos ideia de quem são. E no meio dessa realidade urbana, alguns se destacam como o pastor de igreja, o apresentador de TV, o político, o patrão, o artista. Pessoas que, pelo bem ou pelo mal, persuadem os demais, formam grupos, ganham seguidores e assim movem a sociedade.

 

No centro da história, um camponês que chega a São Paulo em busca de uma vida melhor e ainda na rodoviária conhece Atílio, um homem esperto, vivido, que ora com boas intenções, ora com más, aconselha, conduz e induz o rapaz em sua nova jornada. Do encontro, nasce uma amizade peculiar, que vence a barreira do tempo e da distância numa cidade tão grande. O camponês João, por sua vez, passa por todas as situações típicas de um recém chegado: a busca por emprego e moradia, a discriminação, as dúvidas e até as paixões inesperadas.

 

Enquanto isso, os demais personagens se revezam nas várias histórias que acontecem simultaneamente todos os dias na cidade. Em cena, alguns atores tropeçaram no texto, mas é preciso levar em consideração a tensão da estreia. Bacana mesmo são os momentos em que todos cantam ou falam em coral. Chega a emocionar. Para quem, assim como eu, ficou se perguntando o que tem a ver o título do espetáculo, explico: o texto remete a 1960, época em que a ditadura militar estava no fim; o nome da peça foi inspirado no dito popular “cala boca já morreu, quem manda na minha boca sou eu” e diz respeito à retomada da voz do trabalhador.

 

Para entender um pouco o contexto da peça, pelo que pesquisei, somos quase dez milhões de habitantes na cidade de São Paulo. O processo migratório começou em 1901, ano em que o registro da entrada de nacionais em todo o estado foi pouco mais de 1,4 mil pessoas. No mesmo período, o número de estrangeiros por aqui foi 70 mil. A partir de 1923 aumentou o fluxo da chegada de nordestinos, mineiros e fluminenses. Inicialmente, o destino deles era a lavoura.

 

Mais tarde, os migrantes se espalharam por todo o estado, a maioria, porém, ficou concentrada na Região Metropolitana por conta do desenvolvimento industrial, contribuindo em mais de 50% para o crescimento da população da região entre 1960 e 1970, período em que a peça foi escrita. Seja fugindo da seca ou em busca do sonho de uma vida melhor, cada chegada representava a esperança de emprego e de estabilidade para a família.

 

“Cala boca já morreu” está em cartaz no Teatro Commune até 25 de novembro, com apresentações as quintas e sextas-feiras às 21h. Só não se esqueça de deixar as crianças em casa, pois apesar de divertida, a peça tem cenas fortes e palavrões. Sobre a sala, o lugar é simples, mas acolhedor. Faz a gente lembrar o tempo em que teatro era visto só como arte e não como negócio.

 

Rua da Consolação, 1218 – São Paulo -SP
Ingressos: R$ 40 (inteira) e R$ 20 (meia)


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  • marcia

    A peça é muito bacana, os atores estão bem em cena. Vida longa á companhia!