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A realidade nua e crua da literatura de “Hell”

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15 DEZ
Texto escrito por: Amanda Santoro

Minha relação com “Hell” é profunda e íntima, e não começou com o frisson causado pela peça dirigida pelo argentino Hector Babenco (leia resenha aqui). Assim que peguei nas mãos a obra que lançou a francesa Lolita Pille, então com 21 anos, ao estrelato – colocando-a nas principais listas de best-sellers – houve uma identificação imediata e devastadora.

 

Claro que os excessos no que se referem a drogas, transas e irresponsabilidades não me atingem assim, desse jeito, mesmo porque não tenho tantos zeros na conta bancária. Mas como qualquer jovem da minha geração – que vive numa metrópole mundial e teve a sorte (ou o azar) de frequentar lugares badalados – é basicamente impossível não se colocar, em algum momento, no desespero do vazio interior vivido pela protagonista da obra. Um rombo emocional tão comum no meu círculo de convivência, sempre preenchido por futilidades e atitudes que, no final das contas, acabam por aumentar a solidão daqueles que nunca estão sozinhos.

 

Devorei todas as páginas de “Hell” em um dia e meio. Aliás, como resistir ao sincero e debochado parágrafo inicial? “Eu sou uma putinha. Daquelas mais insuportáveis, da pior espécie; uma sacana do 16ème, o melhor bairro de Paris, e me visto melhor que a sua mulher, ou a sua mãe. Se você trabalha num lugar metido, ou é vendedora numa butique de luxo, com toda certeza gostaria que eu morresse; eu e todas as minhas iguais. Mas a gente não mata a galinha dos ovos de ouro. De forma que a minha espécie irá perdurar e proliferar”.


Hell é uma menina de 18 anos que não deseja nada da vida – pelo simples fato de não existir uma única coisa que não tenha e possa querer. O mundo de Hell é uma chatice sem fim, ela já fez no mínimo dez viagens para conhecê-lo de cabo a rabo. Os amigos de Hell são reféns do status social (assim como ela) e não importa o que queiram, pensem ou façam: no final das contas herdarão os negócios da família. O dinheiro permite que as personagens de Pille vivam em uma redoma intocável de segurança e previsibilidade, e é aí que elas pisam fundo no mundo das grifes, drogas, badalações noturnas e aventuras sexuais.

 

Hell é o nome que a protagonista escolheu para si, abandonando para sempre a Elle registrada na certidão de nascimento pelos pais. Narrado em primeira pessoa, simulando uma espécie de diário, o livro possui uma figura que polariza as atenções com a riquinha mimada: Andrea, um playboy tão arrogante quanto Hell e que se envolve amorosamente com ela. E é esta união explosiva e corrosiva, em tempos em que o “viveram felizes para sempre” acontecem somente nos contos de fada, que conduz boa parte da trama.

 

Assim como sua “galinha dos ovos de ouro”, a jovem escritora Lolita Pille só acorda depois das 16 horas, mesmo porque não vai dormir antes das 7 da manhã. Frequenta boates e bares, e apesar de se considerar classe média, vai a butiques que sugam todo o seu dinheiro. Sem negar que Hell tenha muito de si, Lolita escancara para o mundo uma realidade bastante visível a quem quer que seja, mas que a maioria das pessoas – principalmente das gerações antecessoras – prefere não enxergar.


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  • Marco

    Hell é um grito no vazio da mediocridade das classes abastadas. Relata um mundo paralelo que busca incessantemente o prazer pelo prazer. É um soco no estômago. Quando li o livro fiquei alguns dias pensando o quanto que o ser humano pode ser tão fútil.